Anatomia do mecanismo

Dou graças por ser naturalmente desconfiada. Ontem, uma intuição salvou-me de um mau encontro.

Para se aferir a dimensão do imbróglio, nada como matemática factual: ao fim do dia, tinha eu 62 chamadas não atendidas no telemóvel, cerca de 30 mensagens SMS por receber (com o limite do cartão já entupido) e 10 e-mails por ler, todos provenientes da mesma origem e sempre com a mesma exigência maníaca, acompanhada por alguma chantagem emocional sem efeito e pontuada enfim por um insulto da pior espécie.

É o que acontece quando uma vida é reduzida ao mecanismo: sob o jugo de um programa terrivelmente exacto e determinante, é-se comandado a bombardear tudo e todos com inputs em tempo real até se obter o fito. Eis no que dá o totalitarismo do desejo, unido à facilidade de recursos técnicos e financeiros.

Da minha parte, corta-se o mal pela raiz: o telemóvel irá andar no silêncio, ou mesmo desligado, por um tempo indefinido, o que nem sequer me incomoda muito, pois nunca deixei evoluir essa utilidade para o estado de dependência.

Estou tranquila. Nada mais me compete fazer, senão esperar que os contra-mecanismos institucionais funcionem.

Em todo o caso, ser activista é não cruzar os braços perante um buraco negro que se vê a aumentar, é não se deixar engolir – então eu, que me orgulho de ser especialmente “indigesta” e difícil de assimilar…

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