The powers of flexibility and normalisation

[My admiration for the flexibility of all these extraordinary persons. They know “what a body can do”.]


About quadrupedal members of Ulas’ family: “No single gene would be responsible for this [“wrist-walking”]. (…) No one was there to encourage (…) children on to their feet”.

.


«She [Oxana Malaya] could not understand what a mirror is. When she was shown a mirror, she did not even recognised herself, she did not even looked at it.»

.


“Reptile skill” (crawling) at 4:17.

.


“The more flexible you are, the more pain you can withstand” [8:15] – Tong Zi Gong is learned and practiced regularly at a very early age, because the skill becomes harder to master once the bones are set. Shaolin arts is about the acceptance of obstacles and using them to develop internal and external force.

Os burros pelos nomes

Na sequência da publicação anterior, a questão que imediatamente se colocou foi: se o asno de Zaratrusta (Nietzsche) seria o mesmo que o jumento do Príncipe Muishkin (Dostoievski)?

Antes que alguém pergunte, como já fizeram antes, “Porque é que isso é relevante?” (partir do suposto de que alguém se coloca perguntas que não são relevantes, ao menos para si, é estúpido), vou desde já dizer que considerar que “burro” designa sempre o mesmo tipo de animal é meio caminho andado para não se conseguir orientar no pensamento e na vida. Portanto, sim, é relevante chamar os burros pelos nomes.

O jumento de “O Idiota” possui um certo poder curativo anti-melancolia que habilita o Príncipe a desfrutar prazeirosamente da paisagem estrangeira. É um burro que torna tudo mais leve, que lhe devolve a alegria.

Muito distinto é o asno de Zaratrusta. Esse, torna tudo mais pesado. Tem a cabeça pesada da embriaguez. É um carregador de vinho por natureza, que diz sim a tudo (I-A, I-A), que se resigna a tudo, e que, no fim, acaba adorado como um deus por todos os “homens superiores” dementes. Ele é, enfim, a forma daquele que criou à sua imagem o mundo: “tão estúpido quanto possível”.

Talvez tenha sido este estado de coisas que provocou a melancolia do Príncipe em primeiro lugar.

Para restaurar a saúde principesca, trata-se de levar o asno (o segundo burro) a devir jumento (o primeiro burro): a dissolver a sua forma numa solução, puro zurrar de alegria. À embriaguez do vinho diurno substitui-se a embriaguez da voz da meia-noite. Mais vale ser idiota “à russa” do que o idiota cartesiano.

E chamar alguém de “burro” só é ofensivo se essa pessoa não tiver a felicidade de conhecer a dobra de todos os nomes.

‘The bray of a donkey aroused me’

[This passage is said to have inspired Bresson’s Au hasard Balthazar:]

 

[Prince Muishkin:] «”This was after a long series of fits. I always used to fall in to a sort of torpid condition after such a series, and lost my memory almost entirely; and though I was not altogether without reason at such times, yet I had no logical power of thought. This would continue for three or four days, and then I would recover myself again. I remember my melancholy was intolerable; I felt inclined to cry; I sat and wondered and wondered uncomfortably; the consciousness that everything was strange weighed terribly upon me; I could understand that it was all foreign and strange. I recollect I awoke from this state for the first time at Basle, one evening; the bray of a donkey aroused me, a donkey in the town market. I saw the donkey and was extremely pleased with it, and from that moment my head seemed to clear. (…) Since that evening I have been specially fond of donkeys. I began to ask questions about them, for I had never seen one before; and I at once came to the conclusion that this must be one of the most useful of animals—strong, willing, patient, cheap; and, thanks to this donkey, I began to like the whole country I was travelling through; and my melancholy passed away.”»

– Fiodor Dostojevski, “The Idiot”.

Das alterações climáticas ao clímax das alterações

Que o clima se altera é um facto, não só ubíquo, como desejável. Imaginem uma fileira sempre igual de dias de sol no Verão e de dias de neve no Inverno: que monótono seria. Não pertence à Natureza desdobrada ser monótona.

A questão é antes se as acções humanas podem produzir um determinado clima, segundo o seu capricho? Certamente, elas dão um contributo, mas não podem pretender ser o factor mais determinante da combinatória. Felizmente! O que não quer dizer que os humanos devam cruzar os braços e assistir ao tempo a passar.

O clima é um efeito da combinatória de inúmeros elementos, muitos dos quais nem sequer são conhecidos. Como era a frase? “O bater de asas de uma borboleta no Brasil pode produzir um tornado no Texas” (Lorenz, 1972). Penso que o mais correcto seria dizer: o bater de asas de uma borboleta no Brasil, o deslizar de uma gota de orvalho na Indonésia, o espirro do zulu na África do Sul e a queda de uma folha no raio que a parta, pode produzir um tornado em qualquer lado. Mas quem é que precisa de Lorenz, quando os princípios da teoria de evolução fractal já tinham sido enunciados por James Clerk Maxwell nos anos 70 do século XIX? E em termos extremamente actuais. Ele disse: uma pequenina faísca pode produzir um gigantesco incêndio, uma pedrinha que se desequilibre pode gerar uma avalanche na montanha, um esporo minúsculo pode comprometer toda uma plantação de batatas e a presença ou ausência de uma insignificante gémula pode fazer de alguém um filósofo ou um idiota.

Dito isto: que grãozinho podemos acrescentar à combinatória? Uma faísca ou uma gota de água? Queremos contribuir para um gigantesco incêndio ou para um dilúvio? É mais ou menos entre estes dois extremos concertados que nós estamos, consciente ou inconscientemente. É que os extremos tocam-se. Um clima de tipo rigoroso trará os dois fenómenos: erupções e tsunamis. Terceira alternativa: e se o nosso contributo for uma lufada de ar fresco? Não parece uma via mais moderada, capaz de moderar o clima?

Talvez tudo passe por aí: como maximizar essa lufada de frescura. É disso que se trata. Ora, nós, tal como os bovinos em que pomos a culpa pelas emissões de CO2 quando vestimos a nossa casaca de vegetarianos arrependidos, também emitimos o nosso bafo quente de Madame Bovary. E somos até muitos mais do que as vacas. Portanto, há que receitar um spray contra o mau hálito ao pretenso ecologista que proclama “dias sem carne”, mas continua a fazer proliferar o seu rancho de procriação pessoal. Houve um episódio de Larry David sobre isso: “tantos eus”, dizia o protagonista. Numa palavra, “curb your enthusiasm”.

Desfaçamos também outro mito: a electricidade não é energia limpa. Na verdade, a electricidade é a principal fonte de emissões de CO2 para a atmosfera (cerca de 50%) – maior do que a dos transportes que usam combustíveis fósseis. E, no entanto, tapa-se o sol com a peneira: vamos continuar a electrificar (a electrocutar) o mundo. Venham a IoT, a AI, os veículos eléctricos, e montes de “gagdets” electrónicos. Atentemos, porém: para cada acção, uma reacção. A nossa dependência eléctrica e electrónica cresce a olhos vistos. Lembro-me de uma dona de casa norte-americana me ter dito que, durante uma determinada tempestade em que cortaram a electricidade, esteve em casa o tempo todo sem fazer nada porque nenhum dos seus equipamentos funcionava, e ela, sem o admitir, na verdade não sabia era fazer nada sem eles.

Agora, imaginem, este cenário: uma Terra a despertar geologicamente (mais calor, mais vulcões, mais disrupções nos ventos, mais terremotos, mais tsunamis, mais não sei o quê) e uma humanidade cada vez mais dependente de dispositivos eléctricos. Basta um surto tempestivo e vai tudo para o galheiro. Não vai correr bem… É bom que comecem a ler manuais de sobrevivência, tipo retorno à idade de escuteiro. Mais não seja, para se estar preparado para qualquer ocasião, como faziam os antigos estóicos.

Mas voltemos à lufada. Que seres produzem oxigénio neste mundo? Partindo do pressuposto que não precisamos de mais CO2, certo? O oceano absorve uma boa parte e tal, mas aparentemente não chega. Vegetar é preciso. Mas não as produções latifundiárias de soja geneticamente modificada e afins para alimentar uma chusma de vegetarianos. Tenham dó. Vamos lá combater a hipocrisia. Precisamos de mais vegetais, mas não para comer, antes permanentes, vivos, desenvolvidos, em funcionamento, aos quais seja permitido chegar à sua plena maturidade (o que, em falando de árvores, é, pelo menos, trinta anos de existência). Precisamos de mais rizomas de árvores, em cima e em baixo. Com isto quero dizer: canópias de sombra completa em cima e “networks” de raízes interligadas que retêm a humidade em baixo. Estou farta de dizer isto, mas repito: as árvores são os ares condicionados mais económicos, duradouros e eficazes que se pode ter.

Não são os palitinhos mascarrados de fuligem das nossas cidades actuais que vão remediar a situação. É preciso árvores a sério, com dignidade, fora dos canteiros exíguos que as atrofiam e as isolam, sem serem, mês após mês, desbastadas de ramos folhosos (onde realizam a fotossíntese que nos dá o ar que respiramos), por vândalos a que as câmaras municipais deram o estatuto de jardineiros. É suposto uma árvore escortanhada e enfraquecida resistir num ambiente repleto de agressões externas, como poluição por metais pesados, poluição electromagnética, solos empobrecidos e fortemente compactados, etc.? Mas aprenderam Jardinagem onde? No reino da imaginação?

Só para se fazer uma ideia: de acordo com o U.S. Forest Service (infelizmente, cá não se divulgam muito estes estudos, se é que se fazem), a longevidade expectável das árvores urbanas é de dez anos! Muito mais curta do que a duração média de vida das árvores não urbanas, que vai de 50 a 500 anos, dependendo das espécies.

Obviamente, isto não se aplica só a árvores. Tenho que me pirar da capital o quanto antes, ou ainda me torno fóssil antes do tempo…