Perseguição

A vida perseguia-o. Qualquer que fosse a casa para onde se mudasse, a história repetia-se: quando o senhorio lhe entregava a chave, primeiro, não havia nada, o soalho cheirava a amoníaco e a sensação de vazio era imensa; mas depois, os dias passavam e, pela simples força da sua inacção, toda uma panóplia de seres – reais, não fantasmas -, se reconstituía. Tudo começava com uns pontos minúsculos, uns brancos, outros negros, para os quais haverá certamente uma designação nas enciclopédias dos cientistas, mas ele desconhecia-a, depois, vinha o musgo, os líquenes, os bichos-da-prata, os mosquitos, as traças, as vespas, as aranhas, as baratas, os pássaros de parapeito, os ratos, e, logo, os predadores destes, felinos, furões, raposas, cães, e, paralelamente, feno, grama, capim, trepadeiras, silvas… Num curto espaço de tempo, o oco habitável preenchia-se de populações, tendo por ingredientes principais a sua inércia e a profusa actividade de tudo o resto. Tão inerte quanto um guardião, no seu posto de sentinela. Quando a abundância de germes era tal que os vizinhos protestavam e os boatos chegavam aos ouvidos do senhorio, ele então remetia a chave pelo correio e fugia pela calada da noite, perseguido, sempre perseguido, pela vida, até encontrar o próximo buraco de nada, à espera de ser inseminado. A lenda atribuiu-lhe um nome: ele era o “Cínico”, aquele que vivia como um cão. “Pelo Cão!” – não é essa a expressão mais animadora dos diálogos platónicos?

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A ciência-religião


Martin Heidegger, entrevistado pelo monge budista tailandês Bhikkhu Maha Mani, TV SWR, 1963.

1ª Parte
[2:50]
«… um novo modo de pensar é necessário. É especialmente necessário, porque a questão não pode ser interrogada pela religião. Também é necessário indagar esta questão, porque a relação do Ocidente com o mundo já não é transparente, mas confusa, em parte por causa das divisões das crenças, da igreja, da filosofia, da ciência e do estranho facto de que agora, no mundo moderno, a ciência é considerada como se fosse algum tipo de religião.»

[7:00]
«Foi na Filosofia Moderna que pela primeira vez foi estabelecido o princípio de que só o que se pode claramente, ou seja, matematicamente, saber, é real. Há uma frase muito famosa do físico Max Planck, que diz: “Real é só o que se pode medir”. Este pensamento de que a realidade só é acessível ao ser humano se for mensurável, no sentido da física matemática, domina toda a tecnologia. E, na medida em que isso foi pensado inicialmente por Descartes, o fundador da Filosofia Moderna, a relação entre esta e a tecnologia moderna torna-se bastante evidente».

2ª Parte
[3:58]
«Se alguém vos fala em sub-desenvolvimento, alguém tem de questionar para que fim o desenvolvimento foi pensado. Segundo o moderno entendimento europeu e americano, o desenvolvimento é, em primeiro lugar, uma questão tecnológica.
A partir desta lógica, eu diria que o seu país [Tailândia], por causa de suas tradições antigas e contínuas, está altamente desenvolvido, enquanto que, os norte-americanos, com todas as suas tecnologias e bombas atómicas, são sub-desenvolvidos.»

War on all fixed forms

«I am at war with my time, with history, with all authority that resides in fixed and frightened forms. I am one of millions who do not fit in, who have no home, no family, no doctrine, no firm place to call my own, no known beginning or end, no “sacred and primordial site.” I declare war on all icons and finalities, on all histories that would chain me with my own falseness, my own pitiful fears. I know only moments, and lifetimes that are as moments, and forms that appear with infinite strength, then “melt into air.” I am an architect, a constructor of worlds, a sensualist who worships the flesh, the melody, a silhouette against the darkening sky. I cannot know your name. Nor you can know mine. Tomorrow, we begin together the construction of a city.»

– Lebbeus Woods (1940-2012), in War and Architecture, 2002, p. 1.

Two power sources


“Yuansu III +2” (2015) by Ren Ri

The project’s title, “Yuansu” [at 1m5s] is based on the Chinese words for “tension, element” (yuan) and “mold, relation in-between” (su).

«… worker bees follow their queen (gravity) and fly across my body, which is lying flat on the ground. Here, my body intervenes with the bees’ activities, and can be read as a symbol like “l”, while the route of the bees flying over my body is like “—”. These two symbols form a cross “+”, representing a new form of space when two power sources meet and influence each other. The symbolic form “+” is either achieved in the installation piece. The forms of the human body and bees interact with each other, while the directions of their movements intersect in the space. The duality of interaction between the body and the bees is not simply in the physical sense; more importantly, it hints at an interrelated force and its counterforce» – Ren Ri.

Dance partner


Gordon Matta-Clark, “Splitting” (1974), house (before complete demolition) at 322 Humphrey Street in the suburb of Englewood, New Jersey.

 

When writing about “Splitting”, Gordon Matta-Clark gave the house a performative role, saying that having made the cut there was a real moment of suspense about how the house would react, but that it responded «like a perfect dance partner».

Matta-Clark wrote that the production of the work was not illusionistic, but that it was «all about a direct physical activity, and not about making associations with anything outside it».