Anatomia do mecanismo

Dou graças por ser naturalmente desconfiada. Ontem, uma intuição salvou-me de um mau encontro.

Para se aferir a dimensão do imbróglio, nada como matemática factual: ao fim do dia, tinha eu 62 chamadas não atendidas no telemóvel, cerca de 30 mensagens SMS por receber (com o limite do cartão já entupido) e 10 e-mails por ler, todos provenientes da mesma origem e sempre com a mesma exigência maníaca, acompanhada por alguma chantagem emocional sem efeito e pontuada enfim por um insulto da pior espécie.

É o que acontece quando uma vida é reduzida ao mecanismo: sob o jugo de um programa terrivelmente exacto e determinante, é-se comandado a bombardear tudo e todos com inputs em tempo real até se obter o fito. Eis no que dá o totalitarismo do desejo, unido à facilidade de recursos técnicos e financeiros.

Da minha parte, corta-se o mal pela raiz: o telemóvel irá andar no silêncio, ou mesmo desligado, por um tempo indefinido, o que nem sequer me incomoda muito, pois nunca deixei evoluir essa utilidade para o estado de dependência.

Estou tranquila. Nada mais me compete fazer, senão esperar que os contra-mecanismos institucionais funcionem.

Em todo o caso, ser activista é não cruzar os braços perante um buraco negro que se vê a aumentar, é não se deixar engolir – então eu, que me orgulho de ser especialmente “indigesta” e difícil de assimilar…

Miasmas

Conheço-os demasiado…

Para provar a superioridade da vida em cativeiro, retiram os elefantes e as baleias das estatísticas, focam-se nos pequenos mamíferos que, obviamente, dada a sua dimensão, notam menos a perda de espaço e de circulação. Destacam-se as espécies mais domesticáveis, mais convenientes aos propósitos do “Senhor seu Deus”. Mas é conhecido que, mesmo nesses casos, o registo de mortes nos zoos (o apartamento privado de cada um é um) é subestimado e que a avaliação dos factores de senescência peca por defeito (stress? obesidade?). Digam o que disserem: um “zoo” está muito longe da “zoe”. Está mais perto da “bios”…

Não é também assim que se fabricam as estatísticas para enaltecer a medicina de cativeiro para humanos? O envelhecimento passivo como a cereja no topo do bolo. Narciso, em vez de Goldmundo. O vivido dos Papas preferido à Vida artista. Sempre o mesmo culto da letargia macilenta, dos miasmas sobre o pântano estagnado. Náusea.

Um proteccionismo que mata. De que se protege? Das forças!

Que importa? Contanto que se prolonguem as funções do organismo/mecanismo… E, no entanto, não tem nada de excepcional. O médico, inter-mediário por excelência, aproveita-se de mérito alheio. Os limites de resistência do material estão determinados, dentro de uma certa margem que varia conforme uma boa ou má gestão. Um dobrador de papel experiente sabe dentro de que limites o papel rompe. Então, o médico recomenda: pulverize-se com goma o papel, que se conservará por mais tempo. Mas logo o dobrador se queixa: o papel agora perdeu toda a sua anterior flexibilidade, como farei as minhas dobras sem o romper? E o médico responde: não o dobre. E o papel ganha em conservação o que perdeu em potência.

Oh, conheço-os demasiado…

Ar e areia

Fiz questão de ir, na qualidade de observadora parcial, ou, mais propriamente, de julgadora dos juízes, mas sabendo de antemão que não havia nada a esperar.

Olhando demoradamente para o meu painel de avaliadores, percebi logo que não simpatizava com aquele tipo de pessoas, de rosto enfiado e ideias fixas, nem com o cargo (ou a carga) que elas ocupam, nem com o seu método (que é, de tudo, o pior).

Que estava então eu ali a fazer? Era preciso ter vindo para melhor saborear o erro. O erro! Não valorizo a margem de erro que o mecanismo não tem? Ele que, desde o início, foi produzido e comercializado como purga do erro humano (Babbage). Mil vezes mais pobre! Deitando fora o erro, deitou-se também o bebé com a água do banho. A vida como errância. O planeta que, por definição, é um astro “errante”.

Em relação aos meus erros, sou como a gata branca selvagem que entendeu fazer do meu quintal a sua cama de parto: uma mãe extremosa.

E os seus erros, os da gata, que ela carinhosamente acoberta com o seu corpo, parecem uma sequência pitagórica: primeiro, um branco; depois, dois negros; por fim, três dourados. Nascidos neste Junho, na véspera do dia 20, às 20h, numa Segunda-feira, no segundo dia após Quarto Minguante, e o último dia antes do solstício de Verão.

Quanto aos meus, estão, na realidade, mais próximos dos felinos do que daqueles internos domésticos que procuram homogeneizar todo o mínimo desvio que os seus olhos escrutinem. Que digo – desvio, um clinamen? Ah, ah, ah… Isso já seria muito! A sua atenção recai sobre furúnculos apenas.

A parte graciosa deste processo é que, a partir de amanhã, não haverá mais ilusões. O autêntico mestre dorme um sono sem sonhos. Olhos tomados de projecções internas, não dançam, não escutam, não são olhos de animal.

Raros são os seres humanos vivos que ainda celebram os sentidos anímicos, como os índios a animalidade dos seus totems – e, não por acaso, os envergavam à cabeça (no lugar de cabeça?) durante as danças protectoras.

A verdade é que os mais sensíveis autores (Nietzsche, Pessoa, Kafka – para só referir três), todos se desviaram, enfastiados, da impotência. De certo modo, ainda se desviam…

Sim! O Axis Mundi, a Anima Mundi, vivem ainda! Escrevamos a sua continuação. E deixemos aos coleccionadores de estruturas fechadas e mortas, o pó que o curso do vento levantou.

Trabalhos sem atalho

Ainda este ano vai a meio e estou já tão cansada dele. Para Gregos e Romanos, o número do azar é o 17.

Sinto-me a passar pelos trabalhos de Hércules, com a ligeira diferença de eu não ser Hércules.

Mal diviso o fim de uma encrenca, logo outro intrincado problema me surge para resolver, numa circularidade sem término.

Sem falar das sucessivas decepções e fricções com os génios (os “djinns”) das pessoas. Quão pouca saliva me sobeja para dar lustro ao ego metálico de algumas – totalmente desnecessário, visto que ele incandesce por si só, e não pouco, como que a condizer com a última moda de calçado abrilhantado – efeito inversamente proporcional ao meu menosprezo.

Cada vez mais compreendo a abastança de Diógenes dormindo em seu tonel…