(Des)medidas de limpeza

Ontem tive oportunidade de assistir à palestra de um Engenheiro do IST, e empresário agro-florestal, a desmontar a Lei governamental acéfala da limpeza dos terrenos, e fê-lo ante um representante do Governo.

Confirmou a posição que eu já aqui havia defendido, nomeadamente, o facto de ser uma Lei que penaliza as vítimas (flora, fauna e proprietários) em vez de desencorajar os incendiários criminosos e a “economia do fogo”, mas acrescentou mais algumas informações relevantes:

a) O corte da vegetação, longe de minimizar o combustível, maximiza a sua produção. É sabido, e qualquer biólogo competente o confirmará, que a Natureza sob ataque, reage a podas e cortes agressivos com um maior número de ramos e brotos do que produziria se deixada ao seu desenvolvimento natural. (Tal é válido, tanto para a flora, como para a fauna: veja-se o caso da praga de medusas no mar do Japão, gerada pelo Homem, que começou a trucidá-las sistematicamente). Quanto mais os proprietários mutilarem os exemplares vivos, mais estão a estimular a irrupção de biomassa, e, portanto, tem um efeito contrário ao que se deseja, para não falar que aumenta a frequência com que futuramente terão de proceder a cortes e consequentes custos. Se levarmos em conta, que a maioria dos proprietários de terrenos rústicos pertencem à população do interior rural, com magras pensões, escassez de serviços de apoio, etc., parece-me que não é uma equação nada favorável;

b) Depois de cortada, a matéria morta vai secar muito mais depressa do que se permanecesse ligada ao ciclo vegetativo, que sobe e desce naturalmente com a passagem das estações. Como a nova Lei obriga a que esses cortes ocorram até 15 de Março, pouco antes da Primavera, o que acontece é que se está a antecipar uma seca de material vegetativo, que, por via natural, só aconteceria meses mais tarde, ou seja, os terrenos estarão secos durante mais tempo no ano. No âmbito geral do ecossistema, é evidente que este ratar de matéria vegetal, em zonas anteriormente ajardinadas, vai promover a seca e o empobrecimento dos próprios solos;

c) Em consequência dos cortes, haverá combustível seco acumulado nos terrenos. Como escoar esse material? As autarquias disponibilizam algum serviço gratuito de recolha do mesmo? Não? Então, o resultado será o mais indesejável de todos: antecipar a época e aumentar o número de queimadas por todo o país, que é a solução que resta aos proprietários para fazerem desaparecer o material cortado, e entretanto seco, que são obrigados a gerar para não lhes ser aplicada uma coima. Portanto, a nova Lei de limpeza de terrenos parece-se mais com uma Lei para a promoção de queimadas. Fomenta-se a tal “economia do fogo” (em especial, o negócio eléctrico da biomassa) que deveria ser desinvestida, salvaguardando-se, em vez da ignição que queima, as vidas das vítimas combustíveis (incluindo a flora e a fauna selvagem que nela tem o seu habitat);

d) Não parecerá esta Lei de “limpeza” (nome que fala por si, e que ecoa tanto outros tempos) tão conveniente a alguns proprietários que andam há anos a tentar livrar-se de espécies protegidas para, nesse terreno, construírem ou darem diferente uso? Não é o fim da paisagem, quando a própria Lei fornece um álibi para a indiscriminada intervenção humana? Só tem direito a existir a vida que tenha justificação económica no seio da nossa sociedade?

Hajam petições contra este acumulado de estúpidas políticas, vindas, é claro, de urbanos alienados do que é a vida no campo…

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Foi você que pediu um comprimido?

Nada como ir a uma conferência por médicos e para médicos para os ouvir falar às claras do que receitam aos pacientes – impacientes, diga-se, e que exigem a sua dose como o toxicodependente ao “dealer” a quem pagam (basta uma breve incursão pela história das principais drogas duras para conhecer o papel fulcral que tiveram os médicos e farmacêuticos na sua generalização).

Após a apresentação sobre psico-fármacos proferida numa certa Faculdade de Medicina, em que se enumeraram os efeitos secundários e contra-indicações dos mesmos, qualquer espírito não formatado pela lavagem cerebral farmacológica, se questiona: mas isto são tratamentos ou envenenamentos?! Não por acaso faziam parte da lista os termos “hepato-tóxico“, “cardio-toxicidade“, jargão clínico que fala por si. Tudo o que importa é camuflar um par de sintomas e, em troca, desencadear ou agravar um chorrilho de outros males? Mas quê, alguém aqui ainda professa o juramento hipocrático de não envenenar outrem?

Normalmente, quando digo isto entre leigos, viram-se contra mim – ou porque são eles próprios consumidores agarrados às suas dependências ou por terem alguém na família que, graças ao fármaco milagreiro, dá menos problemas ou está mais controlado. Um misto de egoísmo e de comodismo: o principal é que ninguém os mace.

Portanto, não é de admirar que as estatísticas confirmem o que já havia reparado a olho nu, que estamos entre os países mais drogados a nível mundial, graças a uma perigosa fórmula que combina servilismo médico, marketing farmacêutico e infantilismo dos pacientes, os quais vivem em hipocondria permanente e que entram numa espécie de fobia histérica perante a dor (efeitos da iatrogenia de que já falava Ivan Illich).

Qualquer doença que seja curável (que também há as que não são), se trata com remédios autónomos (dispensam receita ou intervenção médica) que deveriam estar no topo e não no fim das soluções auto-prescritas:
– exercício físico – o sedentarismo, sem mais, é a causa de uma imensidão de doenças psico-somáticas, que vão da obesidade à depressão, passando pelo envelhecimento entravado, por exemplo;
– sono às horas certas – com elas colidem o horário de expediente, o horário por turnos, o horário nobre dos mídia e as horas de exposição a correntes e campos electromagnéticos (toda a parafernália de gadgets electrónicos que nos acompanham permanentemente);
– nutrição completa – não ir atrás do comer e beber socialmente, que nos pressiona a deglutir toda uma série de anti-nutrientes, do açúcar e carne vermelha em grandes quantidades à cafeína, ao tabaco, ao álcool, etc.;
– tempo – a resposta imunitária do organismo é um processo faseado que leva naturalmente o seu tempo, logo, há que ser paciente.

Acreditar em milagres tem o seu preço: cair na dependência dos fármacos e dos médicos, o que, por si só, é bastante deprimente.

Fonte: Business Insider, 2016

 

Fonte: Portugal – Sáude Mental em Números (2015)

A cantora

Sempre que há cantoria, a louça vibra e, às vezes, quebra. Quem canta? Virá do andar de baixo? Mas, lá, não mora ninguém. É então a vizinha de cima, julgo eu. Ainda que quisesse chamar-lhe a atenção, a comunicação entre nós não se faz, pois ela é estrangeira, e eu, não só não falo a sua língua, como nem sei qual é. Portanto, desconheço se ela efectivamente canta, ou antes grita ou pragueja. Só sei que, quando ela emite som, algum prato acaba por se rachar ou mesmo partir. Isso não acontece logo. Chega a demorar cerca de quinze dias a um mês. Esta longa espera entre a causa e a consequência provoca ansiedade e dá azo a tentativas de adivinhação: em que ponto o material vai rachar desta vez e exactamente quando? Outro fenómeno extraordinário é ouvi-la amiúde tão perto e distintamente como se entre nós não houvesse uma densa e espessa placa a separar-nos, quero dizer, como se estivesse mesmo ao meu lado! Comparativamente, em termos sonoros, o tilintar e o fragmentar das peças diante de mim parecem-se com um vagido surdo e distante, embora acompanhado de um tremendo efeito visual. Ah, esta casa estranha em que se vive, quantos acontecimentos decerto incompreensíveis, porém, tão expressivos…

Um pneu na fontanela

Quando não tinha mais do que quatro anos (se tanto), no infantário, um fedelho desaustinado chamado Daniel, ergueu um pneu lá posto, e erradamente suposto, como amortecedor de embates, e transformou-o em arma de arremesso. O alvo: a minha cabeça.

Destinada a levar com um “enso” na mona em tão tenra idade, o efeito não se fez esperar: um instantâneo jorro de sangue quente.

A tentativa não falhada de fundir a minha pessoa à roda de um veículo deixou a sua falha: uma pequenina meia-lua para sempre marcada no meio da testa, e o risco de ficar com a “moleirinha aberta” como diz o povo.

Doravante, na cachimónia, prevaleceu uma certa tendência para girar, algo daquela curva que se aproxima para fender ao meio aquilo onde acerta.

Mas, como se não chegasse o ter-se feito anunciar na minha vida tão cedo e de forma tão contundente e material, a linha curva voltaria a surpreender-me mais tarde, a meio da vida, dessa vez, em pleno acto, como se nela se subsumissem um boomerang imaterial, a lâmina de um khanjar e a “Grande Onda” de Hokusai.

Um pânico sem pânico – de que vale o testemunho de um acontecimento, quando não há sangue, nem marcas, nem um qualquer Daniel para atribuir responsabilidades?

Fico-me, portanto, por um provérbio antigo: “O tempo é uma lâmina: se não cortas com ela, ela corta-te”.

Um bombista-suicida assim

Aquele bombista-suicida era singular. No seu olhar, ao invés de um terrível, sombrio e consciente ódio à vida, havia antes o brilho intenso e destemido de quem deseja explodir, em primeiro lugar, com a sempre presente e re-presente consciência da morte.

Como o seu alvo não era algo de vivo, não podia a sua bomba ser como essas triviais que ferem o vigor dos corpos. O que ele conspirava e forjava artificialmente era a maior bomba de todas (perto da qual, as bombas nucleares não eram senão infantis fogos-fátuos, ainda que mortíferos), aquela que ele sabia que iria rebentar com três de uma vez só: a sua própria forma, a dos seus oponentes, e ainda, e sobretudo, a do mundo total.

E isso enchia-o de uma estranha e inaudita alegria – o quanto isso era necessário, essa dinamite espiritual, em nome de um novo porvir.

A fórmula de uma bomba como essa era secreta e intransmissível, não por vontade sua, mas por requisito real do processo – na verdade, tudo o que fosse vontade sua constituía o antídoto dessa mesma fórmula. Dito de outro modo, a mera produção da bomba era já o seu suicídio, e a detonação, que tudo atingia, a anterioridade energética que tornava possível um novo começo – o Big Bang, não o de uma falsa memória de ficção científica, mas o do tempo imemorial que intuía a vida do futuro. Sim, no fundo de cada cientista, haverá um dia um bombista-suicida.

Quão lamentável não tropeçarmos em bombistas-suicidas assim a cada esquina…