A vida ensiná-lo-á

Foi convocada para comparecer numa sessão de inquérito judicial. O interrogatório desenrolou-se em duas partes. Em cada uma delas, a atitude da autoridade que colocava as questões mudou radicalmente.

À entrada no gabinete, começou-se por interpelar a vítima:

– A senhora sabe “quem” é o Ministério Público?

– Quem?

– Não sabe?! Não vê televisão?

– Não quererá antes dizer “o que” é o Ministério Público? Se se refere ao organismo, sim, sei.

– Sabe o que faz o Procurador?

– Penso que zela pela aplicação da Lei, mas sou uma leiga e não vim preparada para um exame de Direito.

– Isto é cultura geral! E o senhor sabe?

– Cabe-lhe produzir o despacho de arquivamento.

– Vê? Este senhor sabe.

– Claro, ele trabalha num tribunal.

– Ah, sim?…

– Sou oficial de justiça.

– Chamei-os aqui aos dois porque sou a favor da paz social e entendo que, pela via da mediação, se poderá chegar a um entendimento. A senhora concorda?

– Apresentei queixa por considerar que é grave que um oficial da justiça tenha este tipo de comportamentos que são crime público, ou seja, ameaças de violência física, sob a forma de imagens e mensagens escritas.

– Que mensagens?

– Estou certa de que constam do processo… Estão aí nessa folha, de pernas para o ar… Insultos e ameaças de agressão.

– Hum… A senhora pretende manter a queixa ou que se arquive?

– Estou receptiva ao diálogo, no entanto, no mínimo, deveria haver um pedido de desculpas.

– Conhecida a sua posição, deixe-me falar com este senhor. Aguarde lá fora.

 

A espera não demorou muito. Passados cinco minutos, o acusado saiu. A juíza escoltou-o, com um olhar visivelmente furibundo. Convidou a ofendida a reingressar no seu gabinete.

 

– Este senhor é extremamente arrogante e envergonho-me que trabalhem pessoas assim na Justiça. Sendo meu inferior, se nos tornarmos a cruzar nalgum tribunal, vou pô-lo no seu lugar. Cabe-lhe a si decidir se pretende manter ou retirar a queixa.

– O que me aconselha?

– As mensagens foram enviadas de um computador, que ele disse ser da mulher.

– É um estratagema cobarde. A esposa é estrangeira e nunca tratou mal ninguém.

– Pode ser, mas não será fácil provar em tribunal quem foi, se ele ou a mulher. O mais provável é a absolvição por falta de provas. Por outro lado, sendo oficial de justiça, parece-me pouco provável que ele concretize as ameaças, arriscando-se a perder o emprego.

– E o negócio ilegal que ele mantém em casa e que transtorna os outros condóminos?

– Negócio ilegal?

– Consta do processo…

– Hum… Deixe comigo. Prometo-lhe que, a seguir ao almoço, accionarei os mecanismos de inspecção competentes.

– Bem, dado que a minha vida profissional iria ser prejudicada com o arrastar do processo, e as perspectivas são de absolvição, então, retiro a queixa.

– A vida ensiná-lo-á. Assine aqui. Boa Páscoa!

 

Assim opera a justiça, sem maiúscula. A vida ensiná-lo-á.

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Da visão magnética

Esta é a ciência que me interessa: aquela que integra uma visão cósmica. Folgo em saber que pertenço à tribo que inventou uma visão magnética à escala planetária e aprendi-o com este senhor.

Na verdade, hoje assisti pela primeira vez a um seminário seu sobre Astronomia Antiga e percebi logo a sua excelência, não só como sintetizador e regenerador de conceitos, mas também como destruidor de preconceitos. Cito: “Quem disser aqui que a Terra se move, está chumbado”. Por outras palavras, não se pode ler o “Almagesto” de Ptolomeu com pré-conceitos modernos, é um anacronismo forçado e equivale a não o compreender. Há que esvaziar a cabeça aos intelectuais, re-ensiná-los a ler…

E, porém, ela move-se. Axis Mundi. Anima Mundi.

Raras vezes me arrependo de seguir uma intuição. Afinal, ela sabe mais do que eu, esta espécie de daimon socrático. E ela disse-me: vai lá ver o que é isto. Embora extrapolasse o meu programa curricular, dá-se o caso de eu não seguir cegamente programas, mas apenas intuições, que possuem, também elas, magnetismo.

A cegueira branca

A cegueira branca, descrita por Saramago em “Ensaio sobre a Cegueira”, não é uma ficção sobre um hipotético futuro, é o estado actual da humanidade.

Ontem, após um documentário sobre os estragos ambientais causados por leis humanas aplicadas em larga escala, em particular, os subsídios atribuídos a monoculturas para produção de bioenergia, questionei o suposto activista promotor do evento: se a nova lei da limpeza dos terrenos administrada em massa não produzia exactamente as mesmas consequências registadas no filme, tais como a desaparição da camada fértil à superfície do solo, a contracção da biodiversidade vegetal e animal, a retracção dos lençóis de água, etc.

Ele respondeu que, de facto, tinha conhecimento de casos em que jardins públicos foram completamente mutilados e de proprietários que levaram a lei demasiado à letra, dizimando espécies protegidas.

A seguir, perguntei qual era o organismo a que o cidadão poderia recorrer face a um executante de cortes abusivos. Então, ele recomendou a GNR como “aqueles que sabiam exactamente o que era para fazer”. Mas não foram dizimados jardins públicos pelas autarquias com a conivência da GNR?!…

Por essa e outras declarações, ficou claro que ele estava doutrinado pela educação, enquanto propaganda de Estado para formar cidadãos úteis e obedientes, e pelos media enquanto programação à distância.

Ficou claro que estava a falar com um ambientalista “de gabinete”. Esse é que é o principal problema dos discursos legisladores sobre o ambiente: provêm de emissores cuja experiência da Natureza é contemplativa, o mesmo é dizer, como o observador que vê do lado de fora e não como quem a vive. O seu conceito de “natural” é um relvado uniforme, ao lado de uma piscina com vista sobre as montanhas…

Má sorte nascer-se ser vivo nesta época de fascismo permanente, na qual as frases de certos fascistas arrependidos nos parecem tão prenunciadoras e reveladoras da nossa fragilidade (quem nos defende do Estado, quando as suas leis são aniquiladoras?):

«Agriculture is now a motorized food industry, the same thing in its essence as the production of corpses in the gas chambers and the extermination camps, the same thing as blockades and the reduction of countries to famine, the same thing as the manufacture of hydrogen bombs.» (Heidegger)

Não são as alterações climáticas, nem o “aquecimento global”, que trarão fins locais à humanidade, é algo mais quotidiano, que acontece e está a acontecer todos os dias e com cada vez mais frequência e velocidade: fome e sede. Os homens morrerão cada vez mais por não serem capazes de satisfazer as suas necessidades mais básicas, água e comida, numa ilha cujos recursos são limitados por certos ritmos da natureza, mas ainda mais limitados pela estúpida interferência humana.

Os preços de mercado dos alimentos e o valor das “commodities” nas Bolsas escalam a olhos vistos. Os especuladores esfregam as mãos. Especuladores ou espectadores vai dar no mesmo, pertencem ao mesmo espectro de cegueira branca: o perigo de uma mente derivada de mero voyeurismo (Gr. “spec”). Ah, o terrível culto da interioridade da burguesia cristã.

Os índios em fuga, os poucos que ainda resistem à tendência em transformá-los num núcleo museológico ou num guetto de alcóolicos e toxicodependentes, são os últimos filósofos naturais em existência, os únicos humanos que vivem directamente a Natureza, aqueles a quem é preciso escutar (não, não é o mito do bom selvagem, é uma pragmática real):

«Quando a última árvore for cortada, o último rio tiver secado e o último peixe for pescado, o homem branco descobrirá que o ouro não se come.» (Provérbio Lakota)

Eles sabem o que é o “homem branco”, o homem da cegueira branca, o mais selvagem entre os animais:

«Havia uma grande diferença na atitude tomada pelo índio e pelo caucasiano em relação à natureza, e essa diferença fazia de um conservacionista e do outro não-conservacionista da vida. O índio, tal como todas as outras criaturas que foram criadas e desenvolvidas, era sustentado pela mãe-terra comum. Ele era, portanto, parente de todos os seres vivos e dava a todas as criaturas direitos iguais a si próprio. Tudo o que era da Terra era amado e reverenciado. A filosofia do caucasiano era: “coisas da terra e Terra é para ser desdenhado e desprezado”. As florestas foram cortadas, o búfalo exterminado, o castor conduzido à extinção e as suas barragens maravilhosamente construídas dinamitadas, permitindo que as águas da inundação causassem mais estragos, e as próprias aves do ar se silenciaram. Grandes planícies de grama que adoçavam o ar foram reviradas; nascentes, ribeiros e lagos que viviam desde a minha infância secaram, e um povo inteiro foi molestado até à degradação e à morte. O homem branco passou a ser o símbolo da extinção de todas as coisas naturais neste continente.»

«Nós não pensamos as grandes planícies abertas, as curvas das belas colinas e os rios fluindo de modo sinuoso, como “selvagens”. Somente para o homem branco a natureza era uma “selva”, e só para ele era a terra “infestada” por animais “selvagens” e povos “selvagens”. Para nós, ela era mansa. A Terra era generosa e nós éramos cercados pelas bênçãos do Grande Mistério. Só quando o homem peludo do Este veio e amontoou injustiças sobre nós e as famílias que amávamos, é que ela se tornou “selvagem” para nós. Quando os próprios animais da floresta começaram a fugir à aproximação dele, então é que, para nós, o “Wild West” começou.» (Luther “Standing Bear”, 1928)

Há muito que esta terrível tendência deixou de ser um problema étnico localizado e específico dos índios americanos.

Os índios actuais, os índios isolados, somos nós.

Precisando sempre de novos inimigos, o homem branco deveio índio para si mesmo, e simultaneamente, lobo de si mesmo.

A sua estratégia mais global é a da auto-canibalização.

O vampiro

Ser sem sombra, nem imagem no espelho, possui as suas implicações. Tolera-se pouco a carga do que é demasiado vincado.

O vampiro, de olhos piscos devido às lâmpadas fluorescentes da sala, quase impossibilitado de se concentrar, teve de interromper o seu Mestre e rogar:

– Não se importa que apague as Luzes?

– Não, claro. Vou subir os estores, para beneficiarmos de luz natural.

No seu íntimo, o vampiro ficou grato: antes essa luz leve e mais suave. Com ela, ainda era possível conviver.

Após o crepúsculo, o vampiro agendara um evento.

Ao entrar no salão repleto de comensais, um orador palestrava já no seu próprio tom de voz. O vampiro deteve-se, calmamente, a ouvi-lo.

De repente, o técnico de som teve a infeliz ideia de ligar o microfone, o que elevou bastante os decibéis. Todos os ouvintes continuaram impassíveis como se nada de grave tivesse acontecido, excepto o vampiro, o qual foi imediatamente acometido de mal-estar.

O seu escutar começou a deslizar de forma estonteante, sem se conseguir agarrar a uma única palavra do que era dito. Era como se o discurso do homem que antes falava no palco tivesse sido metamorfoseado numa sequência de urros guturais, desarticulados e ininteligíveis, bradados por um troglodita.

Havia que sair dali, com urgência. Vogou para a porta, cambaleando, a cabeça como que atordoada por um monte de pontapés.

O recipiente vazio

Hoje, aos cinco de Março, cerca das cinco e meia da manhã, semi-acordada pela aurora astronómica, uma trovoada passou sobre a cidade.

Apesar de me encontrar na treva, sob os cobertores e posicionada de costas para a janela de estores corridos,  saltei da cama com a expressão terrível que o fenómeno climatérico tomou em mim: um relâmpago!

Passados uns segundos, um trovão ressoou – desta vez, lá fora.

Doravante, saltarei sempre que Thor, com ira divina, abater o seu martelo. Próximo, demasiado próximo. Eis a prova de que sou um recipiente vazio: a luz viaja no vácuo.

Pequenos acontecimentos – o micro-relampejar de uma tosse – confirmavam já uma estranha foto-sensibilidade.

Que se seguirá na recepção? Adivinho já: o movimento.