Lavagem cerebral

O que há a censurar a uma lavagem cerebral é que ela não seja suficientemente eficaz, e constatarmos, não sem um certo repúdio, que o cérebro que foi alvo da lavagem ainda permanece com mancha – o que Valéry chamava de “idée fixe”.

O difícil que é passar através dos desfiladeiros secos e empedernidos que existem em certos cérebros… São cabeças duras como rochas, produzidas pela longa sedimentação de clichés e preconceitos que ardentemente desejamos esboroar só para que algum ar circule.

Porcaria de ciência cujo progresso se faz à custa de adquirir mais manchas, dia após dia, em vez de se proceder como Kierkegaard: «As ideias fixas (…) o melhor remédio é pisá-las». Justamente, para as desfazer e reduzir a pó.

Acordar no dia seguinte com uma ideia fixa a menos – só este pode ser o nosso método, se a meta for, de todo, circular…

Cinema

Ontem, na sala de cinema, sentia o coração como uma pedra colada às costas da cadeira e a garganta apertada como num laço de corda – e eu não existia, era só a pedra e a corda. No meio de um grande fundo negro, uma pedra e uma corda a assistir a um filme delicado, que não causava grande mossa.

Pensa-se que é a mente que delira, mas comigo é o corpo. Na mente, só prevista constância e aborrecimento, nada de novo.

Três voltas

Por três vezes, o acaso fez um determinado indivíduo atravessar-se no meu caminho: da primeira vez, encontrou-me por si só; da segunda, por intermédio de uma mulher; da terceira, através de uma máquina.

Assombra-me a indagação: por que é que este signo retorna na minha vida?, o que é que o acaso tenta insistentemente aqui que os elementos envolvidos, não só desconhecem, como se mantêm em guarda?

Ah, acaso, tu e os teus números teatrais em que me procuras fazer tropeçar por divertimento. O grande trapaceiro ri e eu apenas recebo o eco de consolo.

Sorriso sem gato

Cheguei a casa com um calafrio na espinha e uma imagem fixa no pensamento: o “sorriso sem gato”.

Exactamente como na descrição de Carroll, o gato começou a desaparecer pela cauda (faz já alguns anos) e hoje vi claramente que o sorriso será a última coisa a desaparecer. Em verdade, percebo agora que é o sorriso, o hediondo sorriso, que está a devorar o resto do corpo do gato.

Ver um gato a ser devorado pelo sorriso! Encarar um tal horror, com a consciência de não conseguir deter o processo, torna-o ainda mais abominável…

Pior: vendo bem, sorrisos sem gatos por todo o lado. Com dentes de ouro que brilham mecanicamente. Estou cercada deles. Quem é que ainda possui um corpo e o que ele pode?

No entanto, é tudo banal. E tão banalizado se torna que, em breve, já nenhuma reacção me arrancará.

Ponto e linha

Se um dia juntasse todos os meus amigos na mesma casa, não é assaz improvável que desatasse tudo à zaragata, de tão diferentes que são, a ponto de eu me indagar se terei alguma particularidade em comum com cada um deles, e que varia conforme a pessoa, ou se, pelo contrário, serei estranha às particularidades de todos eles, permanecendo, por isso, receptiva e cortês como um estrangeiro numa terra que não é a sua.

De tempos a tempos, telefona-me uma determinada amiga. A conversa desenrola-se quase sempre do mesmo modo. Queixa-se de que o companheiro actual a começa a enfadar. Pergunto: “O tal de que me falaste, assim e assim?”. Ela responde: “Não, esse era o anterior”. E sempre que me liga, nunca acerto, pois era sempre o anterior. E o presente será, no futuro, anterior a outro. De seguida, aponta a razão, sempre a mesma, que é, segundo ela, a passividade congénita que afecta todos os homens que conheceu ou que está em vias de conhecer. Imagino-a a replicar, com a mesma convicção do cínico Diógenes: “Ando à procura de um homem”.

Resistente à fixação, encorpando um fluxo sem jamais se deter num ponto, encontra-se ao menos resguardada contra a tendência ao ressentimento que afecta espíritos mais obsidiáveis, como, por exemplo, o protagonista da biografia que estive a ler: um escritor italiano que se suicidou após um efémero romance com uma actriz americana.

Mas o que mais me surpreende é que esta amiga aventureira não me ache a mim monótona, na minha serenidade melancólica, e dê mostras de apreciar conversar comigo. Talvez porque lhe indico amiúde um autor desconhecido, um filme por ver, que lhe espicaçam a curiosidade?

É que eu detive-me num certo ponto, de que espero um dia conseguir extrair-me para continuar a viagem ou mesmo puxar à tracção esse ponto, transformando-o numa força, numa linha em movimento. Por agora, o vento não sopra a favor. Consultemos o boletim meteorológico para os próximos dias.