‘La tristesse durera’

Há pessoas que, na minha vida, são marcadores de melancolia. O resultado é, invariavelmente, uma compulsão para a tristeza, contra a qual, ao fim de todos estes anos, ainda não me sei defender. Mas é preciso aprender isso. É preciso também criar uma almofada de distância contra estes estímulos que me sangram o coração só de os ver e ouvir falar, dada a minha sensibilidade extrema a tudo o que inviabiliza a vida, ali onde ela poderia ter atingido um grau máximo de desenvolvimento, com um pouco menos de capitalismo na cabeça e um pouco mais de génio no coração. Irremediavelmente triste para os próximos dias, eu própria sou a pessoa a evitar.

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História da loucura em cinco minutos

Hoje, em plena aula, após ter evocado em voz alta os “hypomnemata” (com que Foucault reviu a sua tese de que a prática confessional se iniciara com o cristianismo), o professor fez-me em público um estranho diagnóstico:

– Mas você possui uma memória prodigiosa! Tome cuidado, pois pode ser sinal de esquizofrenia.

Indago-me se reconhecer nos outros tais sintomas, ter propensão para assim os classificar, também não será indício de uma certa patologia…

Não pude deixar de me rir, é claro, com o dito espirituoso. Nada ripostei. Mas ocorreu-me a frase de Dalí: “A única diferença entre mim e um louco é que eu não sou louco”. Ou a reversão, que, no meu caso, faz ainda mais sentido: a única diferença entre mim e um louco é que somos ambos muito menos loucos do que aquilo que nos faz diferentes.

Afinal, talvez uma universidade não seja muito diferente de um hospital psiquiátrico: tantos pacientes mentais!

Manifesto pela selvi-cultura

Se Portugal está em seca, não é por causa do clima per se – juízo que equivale a não perceber a inter-relação de tudo – mais provável é que seja devido ao que se tem feito às florestas (que, em inglês, até se dizem “rain-forests”).

Querem menos seca, menos incêndio? Porque não se aplica o que já se percebeu (se é que já se percebeu)? Que as árvores são fontes geradoras de um dos átomos da molécula da água, retêm humidade no solo, moderam a temperatura da atmosfera, etc. As árvores são pára-sóis – onde há uma sombra de árvore, o índice de evaporação da água dos solos diminui. Serei a única a trocar a pala metálica disfuncional das paragens de autocarro pela sombra fresca de uma árvore, nos dias mais tórridos? O que comandou a escolha do design das paragens não foi propriamente o conforto dos utentes, mas antes a capacidade de alojar “outdoors” publicitários, de atractiva remuneração. Existem “cercas vivas”, “pontes vivas”, poderiam inventar-se “paragens vivas”, transformando a forma de exibição de publicidade.

A culpa não é do “global warming“, chavão mediático para um aumento de temperatura abstracto e genérico, é algo muito mais concreto: estupidez da interferência humana no que toca aos recursos naturais. Não se trata de “alterações climáticas” em separado, trata-se de “alterações nos viventes”.

Nunca se podou tanto árvores como neste século. Já nem se sabe o que é uma árvore não podada. A forma espontânea da árvore está em extinção. Lavrar, podar, enxertar não são acções prescritas pela Natureza ou pelo instinto. Os humanos são animais “a-variados” (quando lhes falta a variação, a variação absoluta).

Não basta plantar, é preciso não assassinar árvores de copa já desenvolvida. Em vez de as cortar, ajudar a conservar – um pouco como a reabilitação de edifícios está para a construção civil de raiz.

É preciso formar as autarquias para substituir o seu modelo de cuidar dos parques e jardins, baseado no podar árvores frondosas para plantar uns fósforos raquíticos, empenhado em roçar ervas e flores silvestres que perfumam o ambiente e alimentam as abelhas, focado em estender monótonas alcatifas verdes de difícil manutenção à custa de um tremendo desperdício de água. Aquelas que praticam agressivas podas de rolagem, de forma regular, é mesmo de suspeitar que tenham por detrás um rentável negócio de geração de energia a partir da biomassa.

As decisões políticas são ditadas por negócios, pela opinião pública (manipulada pelos media) e pelo senso comum retrógrado (nem mesmo poderei dizer “conservador”, neste caso, pois ele mais destrói do que conserva).

Antes das eleições autárquicas, um dos folhetos da Presidente em funções na Junta local anunciava orgulhosamente: «873 árvores podadas, 103 árvores plantadas» (contra 193 e 20, respectivamente, de uma presidência anterior). A autarca apregoava aos quatro ventos, com tola vaidade, que investiu o dinheiro dos contribuintes em podar os alvéolos pulmonares do planeta. Multipliquem-se os números pelas autarquias do país, as quais, na sua maioria, são ineptas em matéria ambiental, e vê-se a dimensão do descalabro. Por isso, não nos convencem medidas como «implementar efectivamente todo os Planos Regionais de Ordenamento Florestal». São ingénuas.

A quinta onde habito nas férias é dos poucos sítios nas redondezas onde há moitas de plantas silvestres para os animais do meio (roedores, felinos, répteis, etc.), onde há terra repousada para os animais de subsolo (toupeiras, sapos, minhocas, etc.), onde há riqueza de alimento para os animais do céu (abelhas, águias, falcões, corvos, gralhas, etc.), onde há colectores de água da chuva em que nadam animais hidrófilos (rãs e insectos, sobretudo), o que me merece olhares de censura pelos meus vizinhos. São desprezadores da vida. Segundo eles, devia passar tudo a tractor ou conceder que servisse de pasto à pecuária industrial. Estou rodeada de áreas carecas de lavoura agressiva e monoculturas de eucalipto. E a cor do solo muda, para lá dos limites do meu terreno. A matéria não engana.

A seca não é um efeito do clima. É isso que é necessário compreender. Existem inúmeros micro-climas no planeta e eles resultam de um efeito de conjunto do ecossistema disponível em cada zona. Por exemplo, onde só havia pedregulhos e terra árida (“aridez” e “arar” não serão termos com a mesma origem?), expostos à agrura do sol, uns “camponeses” franceses (Perrine e Charles Hervé-Gruyer, de Bec Hellouin) criaram uma amena “floresta comestível”. Plantai o clima que desejardes!

A urbanização/desertificação crescente do mundo é atroz para a vida selvagem: falta de alimento, de abrigo, de habitat, de clima moderado, de silêncio, etc. A abundância (de uma Amazónia profunda, por exemplo) não é obra humana. Seth, o produtor de deserto, foi um deus criado por um povo que outrora habitou uma zona chamada “Crescente Fértil”, antes da desertificação.

Abaixo a agricultura, abaixo a silvicultura, pim!

Invente-se a “selvi-cultura”, a cultura de Silvanus (outro nome de Pã), o grande fauno semi-animal!

Invente-se o “vivinho da silva” – há planta mais resistentemente viva do que a silva, classificada pela malícia de “daninha” e “invasora”, cortada, envenenada por agro-tóxicos, mas produzindo, contra todas as obstruções, o mais férreo e jovial dos frutos: a amora?

A Natureza não deve ser o nosso jardim! O jardim (de “jart”, étimo do francês antigo que significa “fechado, cercado”) é o que, na Natureza, deve ser ultrapassado! Mais abertura, por favor!

Se o humano é o que deve ser ultrapassado em direcção ao sobre-humano, a domesticação humana da Natureza é o que deve ser ultrapassado em direcção a um sobre-natural livre e selvagem.

Contenção forçosa

Tenho-me sentido como um cometa – para usar uma expressão de queda que é, simultaneamente nietzscheana e wittgensteiniana – nas aulas, proferidas por um suposto nietzscheano e deleuzeano (!), dado que estou ali como um extra-terrestre a ouvir uma linguagem “demasiado humana”.

Nietzsche “abandonou o eterno retorno”, tal como Deleuze “abandonou a dramatização”?! Que Nietzsche e que Deleuze são estes? Vale qualquer coisa para polemizar?

Fui eu que não percebi nada? Não, não, os textos de ambos são meus assessores. Leio coisas onde não as há? Possivelmente! Mas se é de um “acto” que se trata, em ambos os casos! Não, eles não abandonaram o processo, este é que os abandonou a eles! Ao menos, que se diga isto desta forma. Tudo o mais é asneira.

Ainda assim, mais vale ouvi-lo falar de Wittgenstein, porque aí pode dizer tudo quanto queira, que resultará sempre num enobrecimento do mesmo aos meus olhos. Para todos os efeitos, ele é um autor que mandava calar… e ouvir alguém falar sobre ele, já é contrariá-lo!

Mas, no meu caso, é melhor repetir, como mantra interior, o mote artístico do naturalismo Proto-Barroco, “Contentione perfectus”, e morder o lábio com força, para não gerar incompatibilidades contra-producentes e desnecessárias. Enfim, é apenas o primeiro dos trabalhos de Ulisses. A nau deve avançar além dos abismos das sereias.

Outra frase me causou prurido – “A filosofia nada mais é do que um exercício de exegese”. Como?! Agora percebo o resultado de certas avaliações. É tudo ao acaso dos encontros. Não há um autêntico critério selectivo. Não se sabe sequer o que possa ser um critério não subjectivo, nem objectivo, nem psicológico, nem empírico.

De facto, os antigos faraós egípcios, com seu ceptro, longa coroa e serpente uraeus na testa, demonstravam sabê-lo melhor. Filhos do Sol.

Caso

À menção, na língua original, da primeira proposição do “Tractactus” – «Die Welt ist alles, was der Fall ist» (O mundo é tudo, o que o caso é) – o meu cérebro devolveu imediata e automaticamente a imagem (saltos que não consigo impedir):

 

«CUIUS CASUS: Si nominativi vel vocativi: Responde Recti. Et eijcienda charta cum curato ubi quidam recte per gradus cadit.

Si gti/dti/accusativi/aut ablativi, Responde obliqui: & proijciatur curatus circa quem ailiquis oblique praecipitatur per gradus.»

 

[OF WHAT CASE? If it’s of the nominative or vocative case, respond Straight. And the cart must be thrown which has the curate with someone who is falling straight down stairs.

If it’s of the genitive, dative, accusative, or ablative case, respond oblique: and the curate must be thrown that has someone falling obliquely down stairs.]

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Caso – caído, causado, do Lat. “cadere, casus”, cognato de ocaso (do Lat. “ob” + “casus”, caído em frente), donde deriva “ocidente” (“oc”+”cadere”, ocaso solar). Opor-se-ia a “acaso” (“a”+”casus”, sem queda e sem causa).

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O “Tractatus” encontra-se dividido em sete partes, enquanto que a Grammatica Figurata em oito.

Não pretendo, de todo, que Wittgenstein tenha lido o cosmógrafo alemão Mathias Ringmann, ainda que, um e outro, tivessem um fetiche com escadas, bem como Velázquez, bem como todos os corcundas tocadores de sinos.

Ambos pensavam em Alemão, língua a quatro casos, mas Ringmann escrevia em Latim, língua a seis casos (isto é, mais pagã e menos cristianizada).

Uma vez caí escada abaixo, sempre a direito. Quando parei, permaneci em silêncio, dado que não conseguia falar. Mas eu tentei, esforço infinitesimal que, para todos os efeitos, me distingue da última proposição do “Tractatus” («Wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen»).

A figura humana que cai obliquamente, três degraus acima, três degraus abaixo, constitui uma fixação maior do que a que cai de uma vez, cobrindo todos os degraus com o seu corpo.

Deitar fora a escada? Só quando deixar de ser cadente (ou de-cadente) – que seja daqui a muitos anos.