A caixa de ressonância de Noé

A meio de Agosto, a ressonância era forte o suficiente para permitir uma antecipação: vem aí… Nos dias seguintes, soube-se pelas notícias que Sobral de Monte Agraço tremera (17/08, 4.3). Face ao histórico anterior, era para desconfiar: demasiado próximo no tempo e demasiado reduzido no grau para se ter originado a partir de um coro tão insistente e persistente como o recebido. No entanto, passado um mês, a atenção mediática vira-se para o México (19/09, 7.1). E o acontecimento deste, sim, entrava no padrão de antecedência e de magnitude.

A lenda conta que a arca de Noé transportava animais. É tentador fazer recobrir o conceito de “animal” por ídolos específicos, que a civilização produziu e reproduziu como uma ciência e como uma religião. Mas, segundo outra tentativa, porventura ainda por registar, a arca de Noé transportava sons vivos, naturalmente aos pares, porque, a cada som originado num epicentro interno da grande caixa de madeira respondia o eco correspondente, quando a onda galopante embatia nas paredes.

E eles aí se moviam, os sons, os gritos, os lamentos, enformando a calda quente da grande fábrica de sabão, e havia sempre um Grito na origem de todos os acontecimentos históricos, tal como nas revoluções da América do Sul (“Grito de Yara”, “Grito de Baire”, “Grito do Ipiranga”, etc.).

E talvez Noé, como Beethoven já surdo, nem precisasse de ouvir música mecanicamente produzida por instrumentos, para compor uma expressão sonora, pois possuía (ou era possuído por?) toda uma terrível Ópera a atravessá-lo pelos poros, ad infinitum (ainda que intermitente e finitamente sensível)…

E esses “animais” só saem da Arca já mortos, sempre já mortos, como as células mortas que se acumulam à superfície da camada externa da pele, onde formam erupções cutâneas, eczemas e acne. Por vezes, uns dedos de pianista a percorrem e espremem (exprimem?) em explosões de pus…

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Só porque o verde me tolda a vista

Conhecia o poema de Pessoa sobre o verde, mas ainda não o havia experimentado.

Hoje compreendi-o perfeitamente, quando, à vinda do campo exterior numa tarde deveras ensolarada, entrei em casa e, em vez do normal efeito de encandeamento que se tem ao transitar para uma sala escura, vi tudo sob um verde intenso, como através de um filtro especial de uma máquina fotográfica.

E, portanto, como se não bastasse a acuidade acroamática, “cenas-fulgor”…

Torno-me criação contra vontade (ou, pelo menos, independentemente dela)…

 

Porque é que as cores têm força
De persistir na nossa alma,
Como fantasmas?
Há uma cor que me persegue, e hora a hora
A sua cor se torna a cor que é a minha alma. (…)

A náusea de todo o universo na garganta
Só por causa do verde,
Só porque o verde me tolda a vista,
E a própria luz é verde, um relâmpago parado de verde… (…)

Quanto pode um pedaço sobreposto
Pela luz à matéria escura… (…)

Anatomia do mecanismo

Dou graças por ser naturalmente desconfiada. Ontem, uma intuição salvou-me de um mau encontro.

Para se aferir a dimensão do imbróglio, nada como matemática factual: ao fim do dia, tinha eu 62 chamadas não atendidas no telemóvel, cerca de 30 mensagens SMS por receber (com o limite do cartão já entupido) e 10 e-mails por ler, todos provenientes da mesma origem e sempre com a mesma exigência maníaca, acompanhada por alguma chantagem emocional sem efeito e pontuada enfim por um insulto da pior espécie.

É o que acontece quando uma vida é reduzida ao mecanismo: sob o jugo de um programa terrivelmente exacto e determinante, é-se comandado a bombardear tudo e todos com inputs em tempo real até se obter o fito. Eis no que dá o totalitarismo do desejo, unido à facilidade de recursos técnicos e financeiros.

Da minha parte, corta-se o mal pela raiz: o telemóvel irá andar no silêncio, ou mesmo desligado, por um tempo indefinido, o que nem sequer me incomoda muito, pois nunca deixei evoluir essa utilidade para o estado de dependência.

Estou tranquila. Nada mais me compete fazer, senão esperar que os contra-mecanismos institucionais funcionem.

Em todo o caso, ser activista é não cruzar os braços perante um buraco negro que se vê a aumentar, é não se deixar engolir – então eu, que me orgulho de ser especialmente “indigesta” e difícil de assimilar…

Miasmas

Conheço-os demasiado…

Para provar a superioridade da vida em cativeiro, retiram os elefantes e as baleias das estatísticas, focam-se nos pequenos mamíferos que, obviamente, dada a sua dimensão, notam menos a perda de espaço e de circulação. Destacam-se as espécies mais domesticáveis, mais convenientes aos propósitos do “Senhor seu Deus”. Mas é conhecido que, mesmo nesses casos, o registo de mortes nos zoos (o apartamento privado de cada um é um) é subestimado e que a avaliação dos factores de senescência peca por defeito (stress? obesidade?). Digam o que disserem: um “zoo” está muito longe da “zoe”. Está mais perto da “bios”…

Não é também assim que se fabricam as estatísticas para enaltecer a medicina de cativeiro para humanos? O envelhecimento passivo como a cereja no topo do bolo. Narciso, em vez de Goldmundo. O vivido dos Papas preferido à Vida artista. Sempre o mesmo culto da letargia macilenta, dos miasmas sobre o pântano estagnado. Náusea.

Um proteccionismo que mata. De que se protege? Das forças!

Que importa? Contanto que se prolonguem as funções do organismo/mecanismo… E, no entanto, não tem nada de excepcional. O médico, inter-mediário por excelência, aproveita-se de mérito alheio. Os limites de resistência do material estão determinados, dentro de uma certa margem que varia conforme uma boa ou má gestão. Um dobrador de papel experiente sabe dentro de que limites o papel rompe. Então, o médico recomenda: pulverize-se com goma o papel, que se conservará por mais tempo. Mas logo o dobrador se queixa: o papel agora perdeu toda a sua anterior flexibilidade, como farei as minhas dobras sem o romper? E o médico responde: não o dobre. E o papel ganha em conservação o que perdeu em potência.

Oh, conheço-os demasiado…