Sobre o “anti-humanismo” e o “trans-humanismo” de Foucault: mas quais?

O título aponta um défice de pormenor, mas ilustra sobejamente duas correntes de opinião que perpassam a academia. Ambas duvidosas.

Primeiro, pode usar-se o conceito “humanismo” (ou o seu inverso), universalmente, sem correr o risco de ser mal entendido? É-se sensível à diferença entre o humanismo da Renascença e o humanismo de tipo moderno que surge, segundo Foucault, no século XIX? Alguma vez este autor se expressou contra o gentiluomo renascentista? Alguma luz se faria se se distinguissem os diferentes humanismos para aferir que o “homem vitruviano” (re-actualizado por Da Vinci) está tão distante do homem de Lineu, quanto a nossa consciência está do cerne da Terra.

Que dizer do “trans-humanismo”? Falamos de um trans-humano que se exprime em infinitas mutações vivas à Chuang Tsé ou, pelo contrário, de um organismo finito protesicamente deformado segundo a opinião do estilista em voga no momento? Que vos parece, a “etopoiesis” de Foucault serviria uma fundamentação dos costumes, um museu do traje?

Que tais mitos alastrem só se pode explicar por uma espécie de insensibilidade, um não-estar-aí, apesar da aparência: não é o estar presente que conta, mas somente o re-presentar. Crê-se que a vida emprestada ao papel aumenta com a maquilhagem e o guarda-roupa. Mas, quanto maior a quantidade de capas, mais insensível se fica ao contacto.

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On programmed intelligence

Arthur Lee Samuel (1901 – 1990) coined the term “machine learning” in 1959.

The Samuel Checkers-Playing program was among the world’s first successful self-learning programs, and as such a very early demonstration of “artificial intelligence” (AI).

He posited the question: «How can computers learn to solve problems without being explicitly programmed? In other words, how can computers be made to do what is needed to be done, without being told exactly how to do it?».

The answer is: they cannot. If the goal is to get computers to solve problems without being explicitly programmed (by themselves or humans), the required structures are programs. So, it is all about getting computers to auto-program themselves.

Another question arises, though: who believes that life is reducible to a program, even an auto-program?

Supposing that intelligence might be reducible to it, it follows that life does not rely on intelligence…

A válvula viva

Quase inconscientemente, sempre distingui os que sabem dos que não sabem, em matéria de gai saber ou gaya scienza (*). Os que não sabem têm esse defeito na visão que é olhar para um bolo de várias camadas, e onde há duas ou três camadas, eles só vêem uma, o que torna a compreensão impossível.

Talvez se possa ilustrar isto com um exemplo científico.

Tendo começado por ler a descrição de William Thomson (Lord Kelvin) sobre o “demónio” de Maxwell, pensei de imediato que era um disparate, um disparate que se iria repetir em debates posteriores.

Então, fui ler o próprio James Clerk Maxwell e, logo, admiração: ah, mas isto é outra loiça!

Dois cientistas contemporâneos, conterrâneos, amigos, em permanente diálogo, e, no entanto, quanta distância entre eles…

Como não podia deixar de ser, Maxwell rejeita o nome “demónio” da lavra de Thomson. Mas mais, muito mais, os separa.

O ser vivo e real de Maxwell é reduzido por Thomson a um demónio mecânico e imaginário.

Evidentemente, com este último, a reversibilidade da segunda lei da termodinâmica não é possível, pois a passagem é obstruída, em razão da ausência ou escassez de inteligência infinitesimal (inteligência que, segundo Maxwell, poderá ser dispensada, assim que se torne um auto-movimento). Conforme defende Maxwell, não se lhe chame demónio, mas valvula (Lat., “portinha”) – e viva. Maxwell Smart, very smart.

No entanto, poderia aceitar-se que se lhe chamasse daimon, no âmbito de uma eudaimonia, enquanto joie de vivre (ou a laetitia de Spinoza). Atente-se, porém, que daimon não é idêntico a demos. Em termos políticos, há uma grande diferença entre democracia e eudaimonia.

O que tem isto a ver com “gaia ciência”, “gaio saber”? Tudo – mas só para aqueles que sabem. Não é culpa minha, se os outros procuram o conhecimento onde ele não vive, mas onde acabou de parar, isto é, entre os mecanismos da imaginação.

Mas, diga-se, faço algo bem mais interessante neste texto: conecto a ciência imediatamente à arte, sob acção da filosofia.

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NOTE:

(*) In Ecce Homo, Nietzsche refers to the poems in the Appendix of The Joyful Wisdom:

«…written for the most part in Sicily, are quite emphatically reminiscent of the Provençal concept of gaia scienza—that unity of singer, knight, and free spirit which distinguishes the wonderful early culture of the Provençals from all equivocal cultures. The very last poem above all, “To the Mistral”, an exuberant dancing song in which, if I may say so, one dances right over morality, is a perfect Provençalism.»

A DANCING SONG TO THE MISTRAL WIND

Wildly rushing, clouds outleaping,
Care-destroying, Heaven sweeping,
⁠Mistral wind, thou art my friend!
Surely ’twas one womb did bear us,
Surely ’twas one fate did pair us,
⁠Fellows for a common end.

From the crags I gaily greet you,
Running fast I come to meet you,
⁠Dancing while you pipe and sing.
How you bound across the ocean,
Unimpeded, free in motion,
⁠Swifter than with boat or wing!

Through my dreams your whistle sounded,
Down the rocky stairs I bounded
⁠To the golden ocean wall;
Saw you hasten, swift and glorious,
Like a river, strong, victorious.
⁠Tumbling in a waterfall.

Saw you rushing over Heaven,
With your steeds so wildly driven,
⁠Saw the car in which you flew;
Saw the lash that wheeled and quivered,
While the hand that held it shivered,
⁠Urging on the steeds anew.

Saw you from your chariot swinging,
So that swifter downward springing
⁠Like an arrow you might go
Straight into the deep abysses,
As a sunbeam falls and kisses
⁠Roses in the morning glow.

Dance, oh! dance on all the edges,
Wave-crests, cliffs and mountain ledges,
⁠Ever finding dances new!
Let our knowledge be our gladness,
Let our art be sport and madness,
⁠All that’s joyful shall be true!

Let us snatch from every bower,
As we pass, the fairest flower,
⁠With some leaves to make a crown;
Then, like minstrels gaily dancing,
Saint and witch together prancing,
⁠Let us foot it up and down.

Those who come must move as quickly
As the wind—we’ll have no sickly,
⁠Crippled, withered, in our crew;
Off with hypocrites and preachers,
Proper folk and prosy teachers,
⁠Sweep them from our heaven blue.

Sweep away all sad grimaces,
Whirl the dust into the faces
⁠Of the dismal sick and cold!
Hunt them from our breezy places,
Not for them the wind that braces,
⁠But for men of visage bold.

Off with those who spoil earth’s gladness,
Blow away all clouds of sadness,
⁠Till our heaven clear we see;
Let me hold thy hand, best fellow,
Till my joy like tempest bellow!
⁠Freest thou of spirits free!

When thou partest, take a token
Of the joy thou hast awoken,
⁠Take our wreath and fling it far;
Toss it up and catch it never,
Whirl it on before thee ever,
⁠Till it reach the farthest star.

(Translated by Maude D. Petre, in Nation, May 15, 1909).

Corrigindo Sophia

O Super-Homem

Onde está ele o super-homem? Onde?
— Encontrei-o na rua ia sozinho
Não via a dor nem a pedra nem o vento
Sua loucura e sua irrealidade
Lhe serviam de espelho e de alimento.

– Sophia de Mello Breyner, in “Livro Sexto” (1962).

 

Gosto deste poema musicalmente: os sons jogam na sua rima interior.

Mas não gosto deste poema significativamente: os significados o destituem de movimento.

Assim, e sem qualquer pretensão de me sobrepor a Sophia, corrijo-o para algo mais de acordo com Nietzsche:

 

Onde está ele o super-homem? Onde?
— Encontrei-o na rua ia sozinho
Não via a dor nem a pedra nem o vento
Sua posição na realidade
Lhe serviam de motor e de alimento.

 

A principal diferença entre a primeira e a segunda estrofe, é que esta, ao contrário da anterior, não se curva sobre si, o que é suficiente para parar tudo.

Einstein e o marketing

Devo dizer que nunca considerei Einstein um tipo genial e, no entanto, se a memória não me falha, a primeira vez que terei ouvido falar dele, talvez numa aula de Ciências do Ensino Secundário, ter-me-á sido apresentado enquanto tal, reproduzindo-se de forma acrítica a propaganda académica em vigor. Na altura, não possuía sequer suficiente conexão à realidade para aferir o que era ou não da ordem do génio, tendo que me contentar com uma intuição inconsciente de que se deve desconfiar de tudo o que nos pretendem fazer acreditar como constante.

Agora, adopto uma posição substancialmente diferente: entendo que Einstein, à semelhança de todos aqueles que só têm olhos para o que é evidente, ficou muito longe da génese do real, e que a sua teoria da relatividade, frágil ante as críticas de Bergson [1], De Sitter [2], Gödel [3] e de ambos os Yourgrau [4][5], entre outros, é senso comum disfarçado de revolução. Nem sequer lhe terá servido para ganhar o Nobel, o qual premiou outra descoberta mais recuada do cientista, embora, como fórmula de marketing pessoal global, amplificada por uma função na League of Nations, tenha resultado muito bem. Afinal, há algo que soe melhor aos ouvidos dos Relativos do que uma personalidade bem colocada confirmar que eles estão certos? A antinomia é evidente: o mais relativo é também o mais constante.

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[1] Henri Bergson in Albert Einstein, “La théorie de la Relativité”, 06/04/1922, Société Française de Philosophie, Paris.

[2] Willem de Sitter, Kosmos – A Course of Six Lectures on the Development of Our Insight Into the Structure of the Universe, 1932.

[3] Kurt Gödel, “A remark about the relationship between relativity theory and idealistic philosophy”, 1949.

[4] Wolfgang Yourgrau, “Some Problems Concerning Fundamental Constants in Physics”, in Current Issues in the Philosophy of Science, 1961, p. 319-342. 

[5] Palle Yourgrau, A world without time – The forgotten legacy of Gödel and Einstein, 2004.