O poema


Herberto Helder recita “O poema, VII”, disco Vinyl editado pela Philips, série Poesia Portuguesa (1968). Inclui: “A manhã começa a bater no meu poema”, “Minha cabeça estremece”, “No sorriso louco das mães”, “Mulheres correndo, correndo pela noite”.

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O poema
VII

«A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.

É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
– Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

– Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.

O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.

– A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.»

– Herberto Helder, in A Colher na Boca (1961).

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Mental Moloch


Allen Ginsberg, “Howl (for Carl Solomon)” (1954-55), San Francisco. Animation by Eric Drooker.

«(…)
ah, Carl, while you are not safe I am not safe, and
now you’re really in the total animal soup of
time –
and who therefore ran through the icy streets obsessed
with a sudden flash of the alchemy of the use
of the ellipse the catalog the meter & the vibrat-
ing plane,
who dreamt and made incarnate gaps in Time & Space
through images juxtaposed, and trapped the
archangel of the soul between 2 visual images
and joined the elemental verbs and set the noun
and dash of consciousness together jumping
with sensation of Pater Omnipotens Aeterna
Deus
to recreate the syntax and measure of poor human
prose and stand before you speechless and intel-
ligent and shaking with shame, rejected yet con-
fessing out the soul to conform to the rhythm
of thought in his naked and endless head,
the madman bum and angel beat in Time, unknown,
yet putting down here what might be left to say
in time come after death,
and rose reincarnate in the ghostly clothes of jazz in
the goldhorn shadow of the band and blew the
suffering of America’s naked mind for love into
an eli eli lamma lamma sabacthani saxophone
cry that shivered the cities down to the last radio
with the absolute heart of the poem of life butchered
out of their own bodies good to eat a thousand
years.

II.
What sphinx of cement and aluminum bashed open
their skulls and ate up their brains and imagi-
nation?
Moloch! Solitude! Filth! Ugliness! Ashcans and unob
tainable dollars! Children screaming under the
stairways! Boys sobbing in armies! Old men
weeping in the parks!
Moloch! Moloch! Nightmare of Moloch! Moloch the
loveless! Mental Moloch! Moloch the heavy
judger of men!
Moloch the incomprehensible prison! Moloch the
crossbone soulless jailhouse and Congress of
sorrows! Moloch whose buildings are judgment!
Moloch the vast stone of war! Moloch the stun-
ned governments!
Moloch whose mind is pure machinery! Moloch whose
blood is running money! Moloch whose fingers
are ten armies! Moloch whose breast is a canni-
bal dynamo! Moloch whose ear is a smoking
tomb!
Moloch whose eyes are a thousand blind windows!
Moloch whose skyscrapers stand in the long
streets like endless Jehovahs! Moloch whose fac-
tories dream and croak in the fog! Moloch whose
smokestacks and antennae crown the cities!
Moloch whose love is endless oil and stone! Moloch
whose soul is electricity and banks! Moloch
whose poverty is the specter of genius! Moloch
whose fate is a cloud of sexless hydrogen!
Moloch whose name is the Mind!
Moloch in whom I sit lonely! Moloch in whom I dream
Angels! Crazy in Moloch! Cocksucker in
Moloch! Lacklove and manless in Moloch!
Moloch who entered my soul early! Moloch in whom
I am a consciousness without a body! Moloch
who frightened me out of my natural ecstasy!
Moloch whom I abandon! Wake up in Moloch!
Light streaming out of the sky!
Moloch! Moloch! Robot apartments! invisible suburbs!
skeleton treasuries! blind capitals! demonic
industries! spectral nations! invincible mad
houses! granite cocks! monstrous bombs!
They broke their backs lifting Moloch to Heaven! Pave-
ments, trees, radios, tons! lifting the city to
Heaven which exists and is everywhere about
us!
Visions! omens! hallucinations! miracles! ecstasies!
gone down the American river!
Dreams! adorations! illuminations! religions! the whole
boatload of sensitive bullshit!
Breakthroughs! over the river! flips and crucifixions!
gone down the flood! Highs! Epiphanies! De-
spairs! Ten years’ animal screams and suicides!
Minds! New loves! Mad generation! down on
the rocks of Time!
Real holy laughter in the river! They saw it all! the
wild eyes! the holy yells! They bade farewell!
They jumped off the roof! to solitude! waving!
carrying flowers! Down to the river! into the
street!

(…)»

Um nome como um tremor de terra

Para Sílvio


Adolfo Luxúria Canibal diz “A Antonin Artaud” do livro “Estilhaços e Cesariny” (2011)

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A Antonin Artaud

I.
Haverá gente com nomes que lhes caiam bem.
Não assim eu.
De cada vez que alguém me chama Mário
de cada vez que alguém me chama Cesariny
de cada vez que alguém me chama de Vasconcelos
sucede em mim uma contracção com os dentes
há contra mim uma imposição violenta
uma cutilada atroz porque atrozmente desleal.

Como assim Mário como assim Cesariny como assim ó meu deus
……… de Vasconcelos?
Porque é que querem fazer passar para o meu corpo
uma caricatura a todos os títulos porca?
Que andavam a fazer com a minha altura os pais pelos baptistérios
para que eu recebesse em plena cara semelhante feixe de estruturas
tão inqualificáveis quanto inadequadas
ao acto em mim sozinho como a vida… puro
eu não sei de vocês eu não tenho nas mãos eu vomito… eu
não quero
eu nunca aderi às comunidades práticas de pregar com pregos
as partes… mais vulneráveis… da matéria

Eu estou só neste avanço
de corpos
contra corpos
Inexpiáveis

O meu nome se existe deve existir escrito nalgum lugar «tenebroso
……… e cantante» suficientemente glaciado e horrível
para que seja impossível encontrá-lo
sem de alguma maneira enveredar pela estrada
Da Coragem
porque a este respeito — e creio que digo bem —
nenhuma garantia de leitura grátis
se oferece ao viandante

Por outro lado, se eu tivesse um nome
um nome que me fosse… realmente… o meu nome
isso provocaria
calamidades
terríveis
como um tremor de terra
dentro da pele das coisas
dos astros
das coisas
das fezes
das coisas

II.
Haverá uma idade para nomes que não estes
haverá uma idade para nomes
puros
nomes que magnetizem
constelações
puras
que façam irromper nos nervos e nos ossos
dos amantes
inexplicáveis construções radiosas
prontas a circular entre a fuligem
de duas bocas
puras

Ah não será o esperma torrencial diuturno
nem a loucura dos sábios… nem a razão de ninguém
Não será mesmo quem sabe… ó único mestre vivo
o fim da pavorosa dança dos corpos
onde pontificaste… de martelo na mão

Mas haverá uma idade em que serão esquecidos por completo
os grandes nomes opacos que hoje damos às coisas

Haverá
um acordar»

– Mário Cesariny, in Pena Capital, Assírio & Alvim, 2004.

A ausência é um estar em mim

«Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.»

– Carlos Drummond de Andrade, in “O Corpo”.

 

L’ épitaphe (Drummond)

Soneto 57

Mudãose os tempos, mudãose as vontades,
Mudase o ser, mudase a confiança;
Todo o mundo he composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Differentes em tudo da esperança;
Do mal ficão as mágoas da lembrança,
E do bem (se algum ouve) as saudades.

O tempo cobre o cham de verde manto,
Que já cuberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudarse cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se mudacomo soía.

– Soneto 57 in “Rimas de Luis de Camões“, I, Lisboa: Domingos Fernandez, 1621, p. 15.