As dobras

2
O BRASEIRO

O braseiro foi para nós esta noite bálsamo,
quando debaixo da sombra nos picavam os escorpiões do frio.
Cheio de luz talhou para nós cálidas mantas
debaixo das quais não sabe o frio em que estamos.
Alimenta o incêndio numa fornalha que rodeamos
como se fosse uma grande taça de vinho
de que bebemos todos.
Umas vezes consente que nos aproximemos
e outras nos afasta,
como mãe que umas vezes amamenta
e outras nos retira o peito.

 

7
LARANJEIRA

São as laranjas brasas que mostram sobre os ramos
as suas cores vivas
ou rostos que assomam
entre as verdes cortinas dos palanquins?
São os ramos que se balouçam ou formas delicadas
por cujo amor sofro o que sofro?
Vejo a laranjeira que nos mostra os seus frutos:
parecem lágrimas coloridas de vermelho
pelos tormentos do amor.
Estão congeladas mas, se se fundissem, seriam vinho
Mãos mágicas moldaram a terra para as formar.
São como bolas de cornalina em ramos de topázio
e na mão do zéfiromartelos para as golpear.
Umas vezes beijamos os frutos
outras cheiramos o seu olor
e assim são alternadamente
rosto de donzelas ou pomos de perfume.

– Poemas de Ibn Sara As-Santarini (Santarém, c. 1043-1123), retirados da antologia de poesia árabe organizada por António Borges Coelho, “Portugal na Espanha Árabe”, volume IV, Empresa de Publicidade Seara Nova S.A.R.L., Lisboa, 1975.

‘The bray of a donkey aroused me’

[This passage is said to have inspired Bresson’s Au hasard Balthazar:]

 

[Prince Muishkin:] «”This was after a long series of fits. I always used to fall in to a sort of torpid condition after such a series, and lost my memory almost entirely; and though I was not altogether without reason at such times, yet I had no logical power of thought. This would continue for three or four days, and then I would recover myself again. I remember my melancholy was intolerable; I felt inclined to cry; I sat and wondered and wondered uncomfortably; the consciousness that everything was strange weighed terribly upon me; I could understand that it was all foreign and strange. I recollect I awoke from this state for the first time at Basle, one evening; the bray of a donkey aroused me, a donkey in the town market. I saw the donkey and was extremely pleased with it, and from that moment my head seemed to clear. (…) Since that evening I have been specially fond of donkeys. I began to ask questions about them, for I had never seen one before; and I at once came to the conclusion that this must be one of the most useful of animals—strong, willing, patient, cheap; and, thanks to this donkey, I began to like the whole country I was travelling through; and my melancholy passed away.”»

– Fiodor Dostojevski, “The Idiot”.

Como se a tristeza fosse árvore

«O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão…

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

– Fernando Pessoa, in Cancioneiro.

Música: Tiago Videira. Voz: Daniela Basílio.

O poema


Herberto Helder recita “O poema, VII”, disco Vinyl editado pela Philips, série Poesia Portuguesa (1968). Inclui: “A manhã começa a bater no meu poema”, “Minha cabeça estremece”, “No sorriso louco das mães”, “Mulheres correndo, correndo pela noite”.

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O poema
VII

«A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.

É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
– Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

– Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.

O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.

– A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.»

– Herberto Helder, in A Colher na Boca (1961).

Mental Moloch


Allen Ginsberg, “Howl (for Carl Solomon)” (1954-55), San Francisco. Animation by Eric Drooker.

«(…)
ah, Carl, while you are not safe I am not safe, and
now you’re really in the total animal soup of
time –
and who therefore ran through the icy streets obsessed
with a sudden flash of the alchemy of the use
of the ellipse the catalog the meter & the vibrat-
ing plane,
who dreamt and made incarnate gaps in Time & Space
through images juxtaposed, and trapped the
archangel of the soul between 2 visual images
and joined the elemental verbs and set the noun
and dash of consciousness together jumping
with sensation of Pater Omnipotens Aeterna
Deus
to recreate the syntax and measure of poor human
prose and stand before you speechless and intel-
ligent and shaking with shame, rejected yet con-
fessing out the soul to conform to the rhythm
of thought in his naked and endless head,
the madman bum and angel beat in Time, unknown,
yet putting down here what might be left to say
in time come after death,
and rose reincarnate in the ghostly clothes of jazz in
the goldhorn shadow of the band and blew the
suffering of America’s naked mind for love into
an eli eli lamma lamma sabacthani saxophone
cry that shivered the cities down to the last radio
with the absolute heart of the poem of life butchered
out of their own bodies good to eat a thousand
years.

II.
What sphinx of cement and aluminum bashed open
their skulls and ate up their brains and imagi-
nation?
Moloch! Solitude! Filth! Ugliness! Ashcans and unob
tainable dollars! Children screaming under the
stairways! Boys sobbing in armies! Old men
weeping in the parks!
Moloch! Moloch! Nightmare of Moloch! Moloch the
loveless! Mental Moloch! Moloch the heavy
judger of men!
Moloch the incomprehensible prison! Moloch the
crossbone soulless jailhouse and Congress of
sorrows! Moloch whose buildings are judgment!
Moloch the vast stone of war! Moloch the stun-
ned governments!
Moloch whose mind is pure machinery! Moloch whose
blood is running money! Moloch whose fingers
are ten armies! Moloch whose breast is a canni-
bal dynamo! Moloch whose ear is a smoking
tomb!
Moloch whose eyes are a thousand blind windows!
Moloch whose skyscrapers stand in the long
streets like endless Jehovahs! Moloch whose fac-
tories dream and croak in the fog! Moloch whose
smokestacks and antennae crown the cities!
Moloch whose love is endless oil and stone! Moloch
whose soul is electricity and banks! Moloch
whose poverty is the specter of genius! Moloch
whose fate is a cloud of sexless hydrogen!
Moloch whose name is the Mind!
Moloch in whom I sit lonely! Moloch in whom I dream
Angels! Crazy in Moloch! Cocksucker in
Moloch! Lacklove and manless in Moloch!
Moloch who entered my soul early! Moloch in whom
I am a consciousness without a body! Moloch
who frightened me out of my natural ecstasy!
Moloch whom I abandon! Wake up in Moloch!
Light streaming out of the sky!
Moloch! Moloch! Robot apartments! invisible suburbs!
skeleton treasuries! blind capitals! demonic
industries! spectral nations! invincible mad
houses! granite cocks! monstrous bombs!
They broke their backs lifting Moloch to Heaven! Pave-
ments, trees, radios, tons! lifting the city to
Heaven which exists and is everywhere about
us!
Visions! omens! hallucinations! miracles! ecstasies!
gone down the American river!
Dreams! adorations! illuminations! religions! the whole
boatload of sensitive bullshit!
Breakthroughs! over the river! flips and crucifixions!
gone down the flood! Highs! Epiphanies! De-
spairs! Ten years’ animal screams and suicides!
Minds! New loves! Mad generation! down on
the rocks of Time!
Real holy laughter in the river! They saw it all! the
wild eyes! the holy yells! They bade farewell!
They jumped off the roof! to solitude! waving!
carrying flowers! Down to the river! into the
street!

(…)»