Dance partner


Gordon Matta-Clark, “Splitting” (1974), house (before complete demolition) at 322 Humphrey Street in the suburb of Englewood, New Jersey.

 

When writing about “Splitting”, Gordon Matta-Clark gave the house a performative role, saying that having made the cut there was a real moment of suspense about how the house would react, but that it responded «like a perfect dance partner».

Matta-Clark wrote that the production of the work was not illusionistic, but that it was «all about a direct physical activity, and not about making associations with anything outside it».

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História da loucura em cinco minutos

Hoje, em plena aula, após ter evocado em voz alta os “hypomnemata” (com que Foucault reviu a sua tese de que a prática confessional se iniciara com o cristianismo), o professor fez-me em público um estranho diagnóstico:

– Mas você possui uma memória prodigiosa! Tome cuidado, pois pode ser sinal de esquizofrenia.

Indago-me se reconhecer nos outros tais sintomas, ter propensão para assim os classificar, também não será indício de uma certa patologia…

Não pude deixar de me rir, é claro, com o dito espirituoso. Nada ripostei. Mas ocorreu-me a frase de Dalí: “A única diferença entre mim e um louco é que eu não sou louco”. Ou a reversão, que, no meu caso, faz ainda mais sentido: a única diferença entre mim e um louco é que somos ambos muito menos loucos do que aquilo que nos faz diferentes.

Afinal, talvez uma universidade não seja muito diferente de um hospital psiquiátrico: tantos pacientes mentais!

A ausência é um estar em mim

«Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.»

– Carlos Drummond de Andrade, in “O Corpo”.

 

L’ épitaphe (Drummond)

Soneto 57

Mudãose os tempos, mudãose as vontades,
Mudase o ser, mudase a confiança;
Todo o mundo he composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Differentes em tudo da esperança;
Do mal ficão as mágoas da lembrança,
E do bem (se algum ouve) as saudades.

O tempo cobre o cham de verde manto,
Que já cuberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudarse cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se mudacomo soía.

– Soneto 57 in “Rimas de Luis de Camões“, I, Lisboa: Domingos Fernandez, 1621, p. 15.