Nymba Ntobhu


“Nymba Ntobhu” [“House of women”], Maweni Farm Documentaries, Mgongowazi project, Kiagata village, Musoma, Tanzania, 2004.

[26:00]

«As men, we must treat wives so well that our daughters don’t fear to get married [choosing “Nymba Ntobhu”, instead]. When you marry a woman, she is not a donkey to be beaten.»

I am myself a machine

Quem suponha que o comunismo e o capitalismo são opostos deveria ver este filme. Tão claro desde o início. O mesmo desejo: de enriquecimento monetário, de exploração agrícola, de sujeição animal, de comodismo, de mecanização, de poluição… Se há diferença, ela reside somente no número de tiranos chamados a desempenhar a função: no capitalismo de elite, uma minoria; mas no capitalismo de comuna, são mais do que os 100 milhões do filme… O que corta a vida, a lâmina (seja de foice manual, seja de gadanheira mecânica) ocupa uma longa sequência (aos 01:11:00), filmada em grande plano como a protagonista principal… “A terra, a quem a trabalha“. “O trabalho liberta”. Os dois extremos rezando ao mesmo ídolo: o Tripalium. Uma história de autómatos: os artificiais em detrimento da Máquina da Natureza.


“Old and New” (1929) by Sergei Eisenstein.

[01:02:50]

«I am myself a machine!»

Silvestre


“Silvestre” (1981), João César Monteiro.

«- Dai-me armas e cavalos,
As guerras p’ra mim serão.

– Tendes cabelos compridos,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Com tesoiras de talhar,
Cortados rentes serão.

– Tendes olhar acanhado,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Quando eu esteja com homens,
Não porei olhos no chão.

– Tendes o rosto mui alvo,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Nos três dias de caminho,
Estes sóis lo queimarão.

– Tendes os ombros erguidos,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Sejam as armas pesadas,
Que os ombros descerão.

– Tendes os peitos mui altos,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Encolherei os meus peitos
Dentro do meu coração.

– Tendes as mãos mui mimosas,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Lá virá vento e chuva,
Qu’ elas se calejarão.

– Tendes largos os quadris,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Vão debaixo dum saiote,
Homens nunca los verão.

– Tendes os pés pequeninos,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Metê-los-ei numas botas,
Nunca delas sairão.

– Tereis medo nas batalhas,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Eu saberei ser um homem
Com a minha lança na mão.

– Tomareis por lá amores,
Irmãs, conhecer-te-ão.

– Os que me falem de amores,
Bem caro lo pagarão.

– Tendes nome de mulher,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Eu me chamarei Silvestre,
Por homem me tomarão.
Venham armas e cavalos,
As guerras p’ra mim serão.»

– Fala de Sílvia/Silvestre, adaptação de “A donzela que vai à guerra” (poema medieval) por João César Monteiro.

Boicotar a monocultura


“Demain” (2015) by Cyril Dion and Mélanie Laurent. Selected video excerpt shows a permaculture farm (Bec Hellouin, at Normandy, France) run by Perrine and Charles Hervé-Gruyer with very high productivity, without petrol, fertilizers or automatic irrigation, based in three principles: rich soil, innovative hand tools and plant consociations. Non-human Nature does the rest. The Machine of Nature, if not opposed by human intervention, manages elements in a way that produces landscape beauty and soft climate variations.

[19:35]
«The world is currently fed by tiny farmers in family farms. The bulk of the world’s food comes from tiny farmers and they are much more productive. They produce most of the world’s food [70%] and the big industrial farmers produce a tiny fraction.
In terms of production, the industrial farmers are hopelessly inefficient. Where they are good is in producing money. Where they are bad is in producing food.»
– Nick Green, PhD in Biochemistry and gardener at Incredible Farm, Todmorden.

[OBJECTION: This opposition between family and industry is quite simplistic. In Europe, family farmers are largely small scale holders which apply industrial agriculture (with petrol machines, artificial fertilizers, pesticides, GMOs, and so on) to a short-sized land. Just look around at the farms in the neighbourhood and see what they are doing. So, the relevant distinction is between practices, not enterprise or land sizes.]

[42:30]
«É preciso pensar sobre nosso consumo, sobre todo o nosso consumo. (…) Algo da ordem de 60-65% do consumo de energia actual poderiam ser evitados.»
– Thierry Salomon, néga-Watt.

[45:05]
«Quatro em cada cinco pessoas em Copenhaga usam bicicleta. Em percentagem, as pessoas que andam a pé são cerca de 20%; de bicicleta, são 26%; e, de seguida, de transportes públicos, são 21%. Portanto, 67% das pessoas não usam o carro.»

[45:30]
«Sabemos actualmente, pelas pesquisas e pelo que aconteceu nos últimos 50 anos, que, se fizermos mais estradas, teremos mais trânsito. (…) Se fizermos sítios mais convidativos para a vida pública, para as pessoas andarem, haverá mais gente a fazê-lo (…). Cada vez mais notamos que fizemos um planejamento urbano que tornou as pessoas muito pouco saudáveis. Passar a vida sentado em casa, no carro, ou olhando o computador é um grande problema de saúde. (…) Não fazemos cidades para os carros serem felizes (…). O que planeamos e construímos influencia os comportamentos, escolhas e estilos de vida das pessoas.»
– Jan Gehl, architect and urban planner.

[51:55]
«Em São Francisco, os lixeiros não vêem lixo. Vêem papel, garrafas, vidro, recursos, restos de comida para serem compostados. Todo esse material é muito bom. (…) Não fazemos o suficiente para vender. Há grande demanda por composto, porque é muito bom para a terra, é muito bom para as plantas. Mantém resíduos fora dos aterros. Devolve nutrientes para as fazendas. Poupa água. Dá aos fazendeiros um meio de corrigir o solo, que podem usar nas plantações para absorver carbono da atmosfera. (…) As fazendas servem as cidades, cultivando o nosso alimento. Há que reverter o papel. Precisamos devolver o alimento às fazendas, sob a forma de composto.»
– Robert Reed, Recology (resource recovery company).

«Toda a grande área metropolitana deveria fazer compostagem com os restos de comida e de jardim. Porquê encher os aterros com este material coisas, se os agricultores querem isso? Eu quero. Sou agricultor e quero composto.»
– Dave Vella, gerente de fazenda vinícola.

[01:07:25]
«Quase todo dinheiro na nossa sociedade é criado por Bancos privados. (…) E como o dinheiro é criado, basicamente? (…) Bem, é criado pelos Bancos, quando concedem empréstimos. Imagine que sou um Banco, e você vem ter comigo e diz: “Quero dez mil libras emprestadas para comprar um carro”. Eu o avalio: “Será que você vai pagar de volta? Sim, acho que vai”. E ponho dez mil, digito os números em sua conta. E o dinheiro está em sua conta. É um dinheiro novo. (…) Portanto, todo o dinheiro que é criado é criado assim, como dívida, com juros que devem ser pagos sobre essa dívida. E você tem de saldar a dívida. Quando você me paga de volta, esse dinheiro não está mais lá, saiu do sistema. Então, para a economia continuar girando, é preciso emprestar mais dinheiro. Se não, o dinheiro desaparece, e temos uma recessão maciça. (…) Se não tomarmos um empréstimo, não há dinheiro.»
– Mark Burton, University of Bristol.

[01:10:00]
«Todas as sociedades patriarcais da História fizeram o que se faz ainda hoje, ou seja, um monopólio monetário com juros. É bastante lógico, pois trata-se de um mecanismo que, sem que as pessoas se dêem conta, concentra os recursos no topo. (…) Criamos uma moeda única à escala nacional e criamo-la através de dívidas bancárias com juros. É o mecanismo geral. Todas as moedas mundiais são do mesmo tipo. (…) Ter aulas de Economia é uma lavagem ao cérebro para fazer crer que é preciso fazer tudo com uma só moeda, para que seja mais eficaz. Não contesto que seja mais eficaz, mas é também muito mais frágil, já que não existe a resiliência necessária. Monocultura agrícola = mais doenças, mais incêndios florestais, menos água, menos animais. Monocultura monetária = 145 colapsos bancários, 208 crises monetárias desde 1970. Podemos aprender o que funciona num ecossistema natural e aplicá-lo directamente à economia. E o que têm todos estes ecossistemas extremamente diversos em comum? É que não permitem uma monocultura. É precisa uma diversidade. (…) Para mim, (…) precisamos mesmo de uma moeda mundial que não seja a moeda nacional de ninguém, e precisamos de uma moeda para o nosso bairro. É isso um ecossistema.»
– Bernard Lietaer, economista.

[01:13:00]
«Oficialmente, a Suíça tem duas moedas: o franco suíço e o franco WIR. A maioria dos suíços não sabe, uma vez que essa moeda circula exclusivamente entre os 60.000 PME que participam desse sistema. Não se pode usar essa moeda fora desse circuito. Ela não vale absolutamente nada. (…) A ideia é evitar que o dinheiro vaze para as multinacionais e proteger o ecossistema económico. (…) Pode ser uma solução para economias fragilizadas. Por exemplo, a Grécia. Se houvesse um WIR grego, bem, conseguiríamos relançar essa economia de novo, dado que esse WIR grego não seria utilizável na Suíça, na América, ou em Londres, nas Bolsas. Então, enviar-Ihes biliões de euros, que desaparecem de novo em 48 horas do país e que vão ao encontro dos especuladores das grandes Bolsas europeias e americanas, não serve para nada. É preciso haver uma moeda que seja utilizável apenas nessa economia fragilizada e que seja de novo posta a circular no interior dela. (…) Não falo de um sistema alternativo, mas complementar. Não teria estas vantagens se se tornasse uma alternativa a outro sistema: as mesmas doenças começariam a atingi-lo.»
– Hervé Dubois, WIR Bank.

[01:30:25]
«Creio que o futuro da democracia situa-se nas novas formas de representação da população. Até agora, conhecemos apenas uma forma: a eleição. (…) Há uma segunda fórmula de se criar uma representação popular, que não é através das eleições, um procedimento aristocrático. É através de sorteio. As nossas sociedades conhecem o sistema de sorteio em um domínio extremamente limitado, ou seja, na formação de um júri. Existe na Bélgica, na Noruega, na França, nos Estados Unidos, etc. (…) Aqueles que são sorteados talvez tenham menos competências que os eleitos políticos, mas eles têm liberdade que é muito maior do que a liberdade de um deputado. Não estão presos, pelas mãos e pelos pés, a toda uma série de interesses, comerciais, de partido político, etc. (…)»
– David van Reybrouck, historian.

[01:39:15]
«Desde 2009, a Finlândia tem estado no topo da PISA, os índices que classificam sistemas educativos dos membros da OECD. (…) Como descreveria o sistema de educação na Finlândia? Muito pouca burocracia. O nome é confiança. O Ministério confia nas autoridades locais, as autoridades locais confiam no director, o director confia nos professores. Não temos nenhuns inspectores. Também não temos exames nacionais, como em muitos países, onde se comparam escolas (…). Usamos o nosso tempo para ensinar, não para fazer testes. O mais importante é a formação dos professores. Na Finlândia, todos os professores fazem um mestrado de cinco anos. Treinam muito em escolas práticas com turmas reais. São introduzidos a muitos tipos de pedagogia: Montessori, Steiner, um pouco disto e daquilo. (…) A grande questão é dar-Ihes muitos modelos, muitas ideias, uma profunda compreensão da aptidão de uma criança para aprender, que tipo de problemas de aprendizagem uma criança pode ter. (…) É importante ter um bom ambiente numa sala de aula. Se o ambiente for muito rígido, eles ficam perturbados e não conseguem se concentrar em aprender, acho. (…) Qual é a diferença entre a forma como educávamos os alunos antigamente e o que estão fazendo hoje? Antes, haveriam talvez 40 alunos numa sala de aula, e ficavam sentados imóveis, muito calados, para não serem censurados com “Calado!” ou assim, e o professor ficava na frente o tempo todo, ensinando. Mas hoje circulamos, os alunos estão autorizados a conversar (…) uns com os outros, não em voz alta, claro, mas tranquilamente. Acho que isso dá aos alunos muito mais autoconfiança e outros tipos de aptidões por estarem com outros alunos e eles também aprendem uns com os outros. E aprendem que o professor não é uma autoridade, não é algo como um deus. Que somos todos iguais. É mais livre e mais aberto, com maior interacção social, mais aptidões sociais. E isso também é importante na vida, para além das disciplinas. (…) Em geral, ensino de muitas formas, para que todos os alunos tenham uma possibilidade. (…) Não acho que haja só um bom método. Acho que há muitos bons métodos. Quando eu estava na escola, havia só um método. (…) Como os alunos são diferentes, tentamos levar em consideração que têm diferentes modos de aprender. (…) Os professores comem junto com as crianças. Faz parte da função. É um momento educativo. Comem juntos, conversam juntos, ensinam-lhes boas maneiras. É um momento relaxante entre as crianças e os professores. (…) Temos problemas disciplinares como há em todos os países, mas a proximidade facilita, pois eles não querem portar-se mal porque gostam de nós, porque somos amigos e percebem que os queremos ajudar. (…) E estes alunos não aprendem só Matemática, Finlandês e História, também aprendem a tricotar, a costurar, a fazer roupas, a trabalhar madeira, metal e couro, a lavar a roupa, a limpar, a cozinhar, a desenhar, a pintar e a tocar música. (…) Prepará-los para a vida (…), sejam uma pessoa mais do tipo manual ou mais do tipo académico. (…)»

80% of supermarket foods are poisoning

[In fact, almost all industrially processed food is junk. Do you really want to eat healthier? Buy raw food directly from trusted local producers and process it at home, if necessary. Or even better: become partially a local producer, for self-consumption, at least. Intermediaries and representatives: the less, the better].

“Fed up” (2014) by Stephanie Soechtig.