Frases que me dão náuseas

A estupidez associada ao pedantismo revolve-me as vísceras cá de uma maneira… Fico logo com uma necessidade premente de ser ainda mais pedante do que o pedante. Alguém tem de desconstruir estas merdas…

«Naquela época, a Igreja Católica era o grande factor de atraso. O século XVIII foi a grande oportunidade para Espanha e Portugal de se modernizarem, mas optaram por permanecer nas trevas. Nós combatemos os franceses, que traziam a luz e as ideias. Combatemos do lado errado.»

R: Refere-se, provavelmente, aos discípulos de Descartes? À luz da “razão” (com muitas aspas) cartesiana, cujo garante é o Deus cristão? É desses franceses que estamos a falar? Chega sequer a conseguir ler a novidade do Tenebrismo de um Cotán, de um Velázquez, de uma Josefa de Óbidos? Ainda se dissesse “os holandeses”, ainda poderia condescender, tendo em conta Spinoza (que era, já agora, neto de portugueses e tetraneto de espanhóis)…

«Outra razão do nosso atraso ibérico, na minha opinião, é que Portugal e Espanha tenham de estar separados. (…) A separação entre os dois países é contranatura.»

R: Esta não percebi mesmo. Então, no século XVII, que veio antes do supracitado século XVIII, quando Portugal e Espanha estavam unidos no mesmo Império, estavam em “atraso”. E agora o atraso é porque estão separados? Homem, decida-se! “Ciência de Estado” e “cultura autêntica” foram bem demarcadas por Nietzsche: a primeira é a “contra-natura” da segunda. De qualquer modo, é evidente que jamais o autêntico conhecimento dependeu de fronteiras geográficas ou políticas. Por exemplo, a qualidade dos estudos astronómicos de Abraão Zacuto (1452-1515) tanto foi reconhecida em Espanha (donde foi expulso), quanto em Portugal (donde tornou a ser expulso), e quanto no Império Otomano, onde morreu. O Padre António Vieira notabilizou-se pelos seus discursos, tanto em Portugal Continental, como no Brasil colonial, quanto em Itália e na Holanda. Heidegger permaneceu relevante antes e depois da queda do Terceiro Reich. Os exemplos são inúmeros.

«Mas devia haver nos governos espanhol e português um ministério do Iberismo, com ministros em contacto permanente, para tratar de todos os assuntos.»

R: Então, explique lá, porquê esse destaque especial dado aos Iberos? Questão de título peninsular (houveram muitos outros como, por exemplo, Sefarad)? Questão de preferência contingente? Também cá estiveram Celtas, Calaicos, Lusitanos, Visigodos, Suevos, Fenícios, Cantábricos, Omíadas, Almóadas, Almorávidas, Sefarditas, etc., etc. Mais uma vez, a besta de carga reclama o jugo: Senhor, dai-me Ministério!

«A boa e velha Europa dos direitos do homem, que iluminou o mundo, essa Europa que nasce na Bíblia, no Talmude, no islão, em Homero e em Dante, em Virgílio, Camões, Cervantes, Voltaire e Rousseau, na Enciclopédia e na Revolução Francesa, essa Europa foi condenada à morte. E isso é um problema de educação. Estamos a criar gerações de jovens que carecem de mecanismos culturais e históricos que lhes permitam saber quem são. Estamos a criar órfãos culturais. Todo o sistema educativo europeu está feito para esmagar a inteligência. Para a igualar à mediocridade.»

R: O anão do “Zaratrusta” de Nietzsche não discursaria melhor: ressentimento e má consciência. A “boa e velha Europa dos direitos do homem”?! Esta é para rir. Em que século é que ela existiu? Na Idade Média das Cruzadas, dos “pogroms” e da caça às bruxas? Durante a Contra-Reforma com a Inquisição e os autos-de-fé? Através do longo período colonial, com a chacina e a escravatura dos povos nativos? No século XX das 2 Grandes Guerras? Não que considere a História da Europa muito diferente da dos restantes continentes, em matéria de sacrifício humano. Vive no mesmo planeta que eu? Acima culpou a Igreja e agora iliba as fontes religiosas? Um pouco mais de coerência! Nenhum homem de génio assomou por exclusiva função de um sistema educativo particular. Medíocre é esta subserviência aos mecanismos oficiais.

«Antes era diferente, sim. Antes, o miúdo brilhante era apoiado, potenciado, porque sabiam que dali sairia a elite do futuro. »

R: Quando? Quem? Houve alguma época na História do mundo em que um homem brilhante tenha sido apoiado incondicionalmente pelos seus semelhantes, sem ter de enfrentar inimigos? Galileu Galilei (obrigado a renegar publicamente as suas descobertas)? Kepler (que teve de alterar um escrito para salvar a mãe da fogueira)? Padre António Vieira (preso pela Inquisição)? Agora é diferente? O que há de diferente é a sobre-população. Não há um Galileu, há mil, o que, pelas leis da divisão e dos grandes números, os obriga a ser menos elitistas, mais modestos, e a ter que partilhar apoios com os restantes. A população mundial passou de cerca de 800 milhões, por volta de 1750, para cerca de 8 biliões, actualmente. Essa é que é a verdadeira questão, ao compararmos as elites de outrora com as de hoje. Diferem na quantidade e, logo também, na qualidade distributiva. E por mais que digam que Malthus não tem razão no contraste entre a progressão exponencial da população animal (homens, coelhos, gafanhotos, etc.) e a progressão aritmética dos recursos alimentares, julgo que ele tem uma certa razão, se contextualizada. Na Natureza, não existe espécie nenhuma (animal ou vegetal) que não se propague exponencialmente, se a deixarmos. Acontece que, frequentemente, não deixamos – é o caso notório de muitas ervas silvestres (classificadas como daninhas ou invasoras) e de muitos animais (de reduzido interesse económico para o homem). Também estes seres vivos, todos eles brilhantes, são pouco apoiados e potenciados. E porquê? Porque há 8 biliões de seres, supostamente mais brilhantes (os sagrados “direitos humanos”), que têm de garantir o seu lugar à custa de outros, necessariamente à custa de outros.

«Sem personalidades brilhantes, carismáticas, não há possibilidade de que o povo faça algo de positivo. O povo, sozinho, não faz nada. Precisa de orientações e de líderes. O problema da Europa neste momento é que não tem líderes.»

R: Vomitivo puro. Depois de se declarar anti-padres, pede-os de volta! Ai, coitadinho de mim, sem ninguém que me conduza… Buá, o menino quer o papá! Calculo que a “honra de ser inútil” de Nietzsche lhe diga muito pouco.

«Fazem falta Hegel, Kant, Spengler, Aristóteles, Platão.»

R: Fosga-se! Logo esses! Mortos todos eles, pim! E que não ressuscitem.

«O islão. É incompatível com os nossos valores. »

R: Ó ignorância convencida de si própria, não existe “o” islão, que não é senão uma designação tremendamente generalista para múltiplas correntes religiosas, muitas antitéticas e que se combatem entre si. Algumas dessas correntes são compatíveis com os “nossos” (este “nós” unânime é bastante forçado) valores, e outras não. É até provável que o nosso catolicismo actual tivesse que evoluir para chegar à altura de um Ibn Al-Arabí (1165-1240) do Al-Andalus.

«Houve uma grande e sangrenta luta para nos livrarmos das grilhetas que a Igreja Católica nos impôs. No islão não houve essa guerra.»

R: Séculos e séculos de guerra entre tribos e correntes islâmicas diferentes, em nada diferente das lutas pelo poder entre as diversas seitas cristãs…

«Porque o Ocidente é débil, medíocre, cobarde. Tenta ser politicamente correcto, é velho, gordo, acomodado, cheio de tecnologia. Enquanto o islão tem fome, tem rancor, tem ódio, tem juventude, tem tomates. Não tem nada a perder e tem muito a ganhar. Por isso vamos perder a guerra – mas não merecemos ganhar.»

R: Fale por si, fale por si. A maior cobardia é alguém só pensar dentro das gavetinhas e rótulos que lhe deram, pré-feitas: aqui “o Ocidente”, ali “o islão”. Lixo! Isto é mais lixo do que o nobre lixo material que depositamos nos contentores. Acabar com a dialéctica que mina o discurso destes pseudo-intelectuais que só instilam rancor e fanatismo. Não há “o” Ocidente, não há “o” islão. Por todo o lado, multiplicidades.

«A Internet é uma ferramenta estupenda, mas não hierarquiza a informação. O que eu ou Vargas Llosa ou Saramago possamos dizer, e o que um filho da puta analfabeto possa dizer estão ao mesmo nível. Não há diferença. Aliás, o que disser o filho da puta analfabeto terá mais repercussão, porque será mais violento. É o receptor que tem de fazer a selecção. Mas o receptor ocidental não está intelectualmente preparado para isso. Por isso a Internet não vai servir para melhorar o mundo, mas para piorá-lo.»

R: Cabrão, o que tu queres, sei eu – hierarquias, aduladores, medalhões e grinaldas. Concedo que o diz “o filho da puta analfabeto” não está ao mesmo nível deste tipo de discurso, pelo menos, quanto a toxicidade, é mais inócuo. Claro que abominas “redes” (a Net) que distribuem o poder de modo não hierárquico, o que desejas são os velhos totalitarismos dos grandes líderes (“Heil, Führer!”), dos Santos Padres e dos Monarcas Absolutos e, à sua imagem e semelhança, dos Autores Iluminados.

«Escrevo, porque me dá prazer. Escrevo para recordar as minhas viagens, os amigos, as mulheres que fodi. (…) Se tens um escritor que viveu, viajou, foi às guerras, fodeu mulheres, em África, na América, na Ásia, durante 20 anos, teve medo, dormiu em quartos hotel onde lhe passavam baratas por cima, cagou sangue, teve amigos leais, conheceu assassinos e heróis, esse escritor tem coisas para contar.»

R: És mesmo aborrecido, poça. Onanista, xenófobo, machista, banal…

«Um escritor português, por exemplo, tem de conhecer, primeiro, Grécia e Roma, porque é de onde vem tudo. Depois, a literatura portuguesa dos séculos XVI e XVII, Camões, etc., quando se forma a língua. E a literatura europeia do século XIX, Tolstoi, Dostoievski, Eça de Queirós, Galdós. E tem de ler Thomas Mann, Conrad, Faulkner, Kundera. Não leu nenhum desses, mas conhece Foster Wallace e Houlebecq? Então é um filho da puta, não pode ser escritor. E pensa que descobriu coisas que existem desde os gregos.»

R: Sujeição rasteira a todos os nomes pré-fabricados da História. O burro gosta de carregar. Carrega, cheio de jactância, o “bom gosto” da pura arbitrariedade. Tolstoi, mas não Foster Wallace. Se não baba, se não lambe botas, não escreve. Vê-se mesmo que é um jornalista armado em escritor! Vai mas é ler a tua santíssima literatura europeia, mas a sério! Achas Kafka um génio? Então, lê Kafka: “O meu direito é estar aqui”. Ponto! Lê Nietzsche, Foucault, Deleuze, Derrida… Se queres babar, baba ao menos sobre os que eram anti-baba.

Nocturno

Vieste até mim um tempo antes
dos Cristãos soarem os sinos.
O crescente lunar erguia-se no alto
como a branca sobrancelha de um velho
ou a delicada curva de um pé.

E, apesar de ainda ser noite,
quando vieste,
um arco-íris luziu no horizonte,
exibindo cores, tantas quantas
as da cauda do pavão.

– Tradução de poema de Ibn Hazm in Ibn Said al-Maghribi’s Pennants of the Champions.

Só viemos para o sono

«Assim deixou dito Tochihuitzin,
assim deixou dito Coyolxiuhqui:

“Só viemos para o sono,
só viemos para o sonho,
não é certo, não é certo,
que viemos sobre a terra para viver.

Erva primaveril nos tornamos,
reverdesce e abre as suas pétalas
o nosso coração.
É uma flor nosso corpo:
floresce e logo seca.”»]

– Cant. Mex., t. 14 v., Iin. 3 ss. De Tenochtitlan.

Enthousiasmos

Cultiva-se tanta coisa mais inútil – culturismo, cultura, agricultura, piscicultura, suinicultura… – mas, ao nobre culto do entusiasmo, quanto desprezo!

Para qualquer lado que me vire, só má consciência e ajuizados prematuros pelos rudes cultores da tristeza. Os pequenos fascismos quotidianos alojados nas palavras e nos gestos.

De quanta evolução necessita esta humanidade para ser capaz de elevar o ânimo até às alturas.

Culto sensível – basta um minúsculo pico e o entusiasmo esvazia-se como um balão.

Procuram-se Ícaros, cuja queda seja amparada pelas asas daqueles a quem entusiasticamente impeliram a levantar voo. Toda uma rede sin-energética de aves entusiasmadas soprando-se umas às outras contra a gravidade. Ah, onde é que ainda encontro alento que me assopre bem para o alto da potência?