Descrição de um buraco negro

Ontem, o Professor diz-me: “Ele precisa de ajuda”.

Respondo da forma mais contida que consigo arranjar: “Já não sei o que dizer”.

Uma resignação que me acompanha há algum tempo, a mim que não acredito sequer que a comunicação, a reflexão ou a contemplação possam tirar estas pessoas do terrível buraco negro em que caíram.

Mas seja-me permitido, ao menos, a descrição da desesperança e inscrever o problema contra as escarpas da negligência social.

O facto é que são pessoas sitiadas pela própria situação em que se encontram. Como salvá-las da sua situação, da sua sitiação?

Encontram-se sitiadas de cinco formas:

– LEI – Legalmente, elas são maiores, e, como tal, estão sob alçada da sua própria vontade, que não é nada mais do que um efeito da parte física. Quando o corpo (em particular, o cérebro e o sistema límbico) é habituado a funcionar patologicamente, a vontade é pervertida e vota-se à auto-destruição como se ela fosse a subsistência. Então, a maioridade é um estatuto que dá a cada um o direito de se matar, ao ritmo e sob a forma que entender;

– FAMÍLIAS – Predomina a ingenuidade. Não estão preparadas para lidar com o inimigo. Enquanto não estão instruídas sobre o problema, ele vai evoluindo e fá-lo rapidamente, e quando enfim se encontram mais esclarecidas sobre ele, ele já tomou proporções muito difíceis de reverter. Depois, para além da questão temporal ser crítica, uma reacção demasiado branda e crédula dá maus resultados. Uma pessoa não se defende de um pontapé com um paninho de flanela e uma oração piedosa. E, de repente, é tarde, é tarde para tudo: para lutar, para gastar ainda mais dinheiro, para mudar de estratégia…

– MÉDICOS – Foram eles que inventaram, são eles que receitam, o pharmakon. Comportam-se como dealers de bata branca, há muito esquecidos do juramento de Hipócrates (não envenenarei outrem…). Os subsídios governamentais aos fármacos de substituição são uma receita conveniente. Os tratamentos de desintoxicação nas clínicas de reabilitação forjam médicos milionários por esse mundo fora, com especial dedicação a VIPs, estrelas de cinema e da música, políticos, financeiros. A predação dos ricos pelos aspirantes a a serem ainda mais ricos. Quem não tem uma conta bancária choruda, que se contente com os simulacros da cura subsidiada: passar de um fármaco a outro, ainda mais outro e aqueloutro… cobaia ad infinitum, caso não se morresse antes.

– SOCIEDADE – No geral, é conservadora, hipócrita, egoísta, indiferente. Fomenta o estigma, não sem alguma razão, pois são conhecidas as consequências, caso o influxo farmacológico estanque: os furtos, a violência, a degradação moral e comportamental… A gente tem sempre mais com que se preocupar, não é mesmo? O emprego, a família, o fim-de-semana, as férias, e tudo o resto fica para depois. Os outros seres fora do nosso círculo, sejam humanos, animais ou plantas, tudo isso é de importância terciária. Enquanto acontecer só aos outros, não temos tempo, não queremos saber. Mas, no melhor pano, cai a mancha.

– AMBIENTE – O mundo urbano é uma rede, não só de vias e de comunicações, mas também de pontos de entrega. Toma lá, dá cá. Venham para cá as notas, toma lá o produto. A limpeza das trocas comerciais. E viver em rede é também isto. Estar sujeito às permanentes tentações da fácil aquisição e do consumo sem dissonância cognitiva. Ou como cantavam os Repórter Estrábico, “Mata a fome / Consome / Consome“, que, aliás, serve de incentivo para tanta coisa, tanta dependência legal e ilegal, consciente ou inconsciente.

Alguém tenha ideias para salvar estas pobres pessoas, porque, nas condições actuais e como está mais que visto, elas próprias e o seu meio são o que menos as pode salvar.

Dos pobres ricos

As pessoas em geral alimentam certas ilusões em relação aos ricos, e é essa a origem da sua inveja.

Na minha profissão (talvez deva dizer numa das minhas profissões transitórias), acontece por vezes privar com ricos, coibindo-me de quantificar o tamanho da sua riqueza porque não faço ideia (nem quero saber, honestamente), digamos que são ricos o suficiente para morarem numa das zonas mais caras da capital, em termos imobiliários.

Não me lembro de alguma vez ter invejado gente rica, pela simples razão de que observava a forma como viviam e pensava: “Se eles soubessem o quanto são pobres, tratariam depressa de deixar de ser ricos”. Possuem, como direi?, uma certa pobreza… que é a de Atlas pressionado debaixo de cifrões que pesam como chumbo. Ter dinheiro, paga-se, e paga-se caro. Não é de graça, pelo contrário, é até bastante pobre em graça.

Nalguns desses lares onde ia, era algumas vezes simpaticamente convidada a comer. Costumo aceitar quando me lançam o convite (só descobri há pouco tempo que nestas terras é uma indiscrição social aceitar logo, deve-se “fazer cerimónia”, questão cultural, sinal de que ando sempre a Leste, é que na China é ao contrário, recusar o convite é que é desrespeitoso, e, para mim, faz mais sentido, anuir à hospitalidade do que bloqueá-la, contrafeito). Contudo, em casa de gente rica, é comum eu recusar delicadamente. Porquê? Porque os ricos não sabem escolher – é de perceber porquê, é que levaram muitos anos a delegar nos outros o trabalho manual, então, ao evitarem a manipulação real, compreendem os materiais pela forma, não pelo processo. Não sei se estão a perceber o real perigo que constitui ser governado por pessoas com esta ignorância… Sem falar das consequências de criar toda uma geração que só sabe teclar para ecrãs grandes ou pequenos, mas não pôr as mãos na massa e fazer coisas de raiz.

Esse desconhecimento reflecte-se, em primeiro lugar, na comida. Alguns exemplos: preferem frutos enormes (aposto que modificados geneticamente) que não sabem a nada, pratos pré-confeccionados carregados de aditivos, snacks nada saudáveis, etc., etc, tudo com óptimo aspecto, mas pouco nutritivo. Naturalmente, não aprecio nada do que comem, mas quando insistem muito e sou forçada a aceitar, tento não pôr cara de desagrado, por cortesia.

Dirão: mas não são só os ricos que comem essas porcarias. É verdade que não, mas eles comem-no com maior frequência, pois podem pagar, e quanto mais processado e pré-preparado um produto, mais caro.

Não é de estranhar, pois, a quantidade imensa de figuras públicas (uma sub-categoria dos ricos ou dos pseudo-ricos) que aparecem com cancros. E nem as horas de ginásio os salvam.

O que não quer dizer que eu ou qualquer outra pessoa esteja ilibada de contrair essa ou outras doenças.

Mas eles não levam uma boa vida também por outras razões: o seu tempo está completamente votado a tarefas fúteis, dos cuidados de beleza à carreira e ao entretenimento. E qualquer um que os tome por modelo, mesmo sem ser rico, mas só por aspirar a sê-lo, também sofre dos mesmos vícios.

Lembro-me de um conhecido meu me contar que foi passar uns dias com um amigo pertencente à nobreza espanhola e, ao fim de pouco tempo, já estava farto daquela rotina terrivelmente condicionada e protocolada, e só desejava voltar à liberdade de movimentos do perfeito anónimo. Ele também percebeu que o centro de vórtice é onde tudo está mais fixo e onde menos se respira livremente.

Há uma frase, acho que bíblica, não sei exactamente daonde, que afirma que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.

É uma frase que aprecio sobretudo pela primeira parte que a compõe: a de conceber um camelo que passe pelo buraco de uma agulha. Conseguir-se isso exige duas coisas, pelo menos.

A primeira é ser-se rico de outra maneira, que não tem a ver com a posse de bens inchados (tanto os frutos, como os carros e as casas) a que se sacrifica necessariamente o corpo e o espírito. É uma lei inversamente proporcional: quanto maior a inflação de propriedades, menor a dinâmica anímica.

A segunda coisa só sabe quem já se tornou camelo com duas bossas nalgum momento da vida, e, se não passou totalmente pelo buraco da agulha (tarefa infinita e incessante), pelo menos, descobriu-o, o que, por si só, já é um grande acontecimento.

Não creio que alguém com rotinas de rico chegue aí, pois não há buracos, só há pontos cheios, está-se demasiado obstruído por comida, coisas, problemas e fixações mentais. É, de facto, impossível ir-se lá com, seja o que for, de fixo.

O principal obstáculo à mutação é mesmo esse: estar agarrado a formas que são como bolas de sabão…

Trata-se de rebentá-las com a agulha.

Dos churrascos de Verão

Isso, continuem a cortar árvores e a espalhar esses relvados estéreis de que tanto gostam e vão ver os belos churrascos que o clima proporcionará nos próximos tempos. Não vos cheira já a esturro? Ou será carne humana?

Afinal de contas, dizem os media, o aquecimento e o arrefecimento global é por causa das “alterações climáticas” – dá mesmo jeito ter um chavão destes para uma pessoa se desresponsabilizar e continuar a fazer as cagadas de sempre.

Isso, continuem a remover os “ares condicionados” gratuitos e eficazes que são as árvores, e continuem a instalar dos outros, os que consomem electricidade, os que reclamam mais, sempre mais, electrificação planetária, que, a multiplicar por biliões de cretinos a sonhar com a sua Las Vegas no meio do deserto, dá o quê? Churrascos no Verão e “glacés” no Inverno – para quem pensa unicamente com o estômago, não é mau de todo.

É muito difícil não se ser cínico nos dias que correm…