Como se a tristeza fosse árvore

«O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão…

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

– Fernando Pessoa, in Cancioneiro.

Música: Tiago Videira. Voz: Daniela Basílio.

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Uma luz que se apaga

Se fosse supersticiosa, diria que este próximo ano não agoura nada de bom:

– A vela do bolo apagou-se umas três vezes – tinha pavio curto;

– O dia extinguiu-se comigo a sangrar de uma epistaxe;

– Morreram-me sete gatos, todas as sete vidas de um gato;

– A fonte de alimentação do computador também foi à vida.

 

E a vida é talvez isso: uma luz que se apaga.

Da morte da selva

Esqueci-me por completo do meu próprio aniversário, não fossem os outros lembrarem-se. Na verdade, quando a inflexão já se deu e a curva é descendente, perde-se um pouco a vontade de celebrar. Acresce que ando com o ânimo muito em baixo. A semana passada vi cadáveres todos os dias, e tento também eu não me tornar um, por impressão e sugestão.

As consequências dessa lei impiedosa para com as vítimas (flora e fauna), mas que poucos contestam, intensificaram-se este mês: muitos quilómetros de ecossistemas destruídos, animais em apuros, ninhos e ninhadas abandonadas. Tentei salvar uma que encontrei, mas as crias foram-me morrendo, uma após a outra. Restam-me duas. É quando nos damos conta da máquina extraordinária e insubstituível que é uma mãe viva e do quão frágil é o equilíbrio que permite que a vida se sustenha.

Uma civilização que não respeita outras formas de vida, nem as bases que sustentam a vida em geral, incluindo a sua, não me merece qualquer respeito. Não foi Eva, mas a Árvore do Conhecimento que substituiu a Árvore da Vida, tal como a Natureza-Madrasta com patente industrial se substitui à Mãe-Natureza espontânea e selvagem. Elas não se igualam, nem por sombras, em aptidões, em potências. E estes pobres seres que morrem são os fortes que os fracos aniquilam (Nietzsche).

«Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte (…)

Não quero sem Silvano já ter vida,
Pois tudo sem Silvano é viva morte,
Já que se foi Silvano, venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida. (…)

Mas se na alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.»

The arrow exists in the target

Fei Wei was a famous archery master. His arrows were never shot in vain and no target was missed by his shot. Ji Chang hoped to learn archery and asked Fei Wei to teach him. After accepting Ji Chang as his disciple, Fei Wei told him how he should train: ”Practice till you be able to stare at a target and never blink, and then we will talk about learning archery.” When Ji Chang returned home, he lay under his wife’s loom and stared at the foot pedal as his wife weaved. After two years of practice, even if the tip of the shuttle went right in front of his eyes, Ji Chang would not blink. He then visited Fei Wei, who said: “This is not enough. Train your eyes to the point that the minutest details will look big.” Then, Ji Chang hung a yak’s tail with lice in the hair by the window, and began to stare at it every day. After one month, it began to look a little bit bigger. After three years, the lice became so clear and articulate in Ji Chang’s sight that he was able to drive an arrow into the center of a louse. Ji Chang then hurried back to Fei Wei, who happily told him: “You’ve already learned the arts of archery.”

– from Liezi’s collection of works, c. 475-221 b.C.

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There are 3 levels of skill in Kyudo:

  1. Tōteki, the arrow hits the target.
  2. Kanteki, the arrow pierces the target.
  3. Zaiteki, the arrow exists in the target.

Do ouvido animal

Actualmente, não aguento durante muito tempo em locais barulhentos. Fora de questão ir a festivais, discotecas e antros de barulho. Os ouvidos não mo permitem. Bastarão três exemplos para perceber a razão:

a) Certo dia, deixei, na mesinha do hall, o telemóvel (cujo toque activo é o coaxar de uma rã, escolhido precisamente por ser o mais grave e menos estridente, entre os disponíveis), encostei a porta, desci seis andares em altura e fui abrir a porta de entrada do prédio a uma visita, e não é que ouvi o telemóvel a tocar lá em baixo?

b) Noutra ocasião, passou o homem que vem ler os contadores, mas como a contagem já estava posta do lado de fora, ele, sem tocar à campainha, limitou-se a apanhar o respectivo post-it da porta, e eu, que estava na cozinha, ouvi o som áspero e breve do descolar;

c) Hoje, sentada em frente ao computador, escutava, de tempos a tempos, uns ruídos quase imperceptíveis, procurei em volta até que descobri que era uma traça que, ora batia na parede, ora no abajour de papel, atrás de mim;

d) Oiço ainda mais do que alguém acreditaria, portanto, direi apenas que estou solidária com as baleias, que dão à costa por estarem a ensurdecer no mar invadido por milhões de mecanismos, e com os elefantes, que fogem antes da tempestade, e, enfim, com todos os outros animais serenos e de audição apurada, que reagem em pânico ao mínimo sobressalto: morcegos, gatos, pombos, ratos, mochos, golfinhos, cavalos…

Pode ser realmente ensurdecedor viver neste mundo, onde a lei anti-ruído só vigora por um curto período nocturno e se faz pouco caso dela.

Porém, a dar ouvidos à tradição, talvez esta capacidade seja sintoma de saúde débil (“ter ouvidos de tísica”).